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Chico Alves


Bolsonaro fez pronunciamento que (infelizmente) entrará para a história

24.mar.2020 - O presidente Jair Bolsonaro, em pronunciamento exibido em rede nacional - Isac Nóbrega/PR
24.mar.2020 - O presidente Jair Bolsonaro, em pronunciamento exibido em rede nacional Imagem: Isac Nóbrega/PR
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

24/03/2020 22h00

O pronunciamento feito hoje em rede nacional pelo presidente Jair Bolsonaro entra para a história. Infelizmente para os brasileiros, de uma forma trágica. Num rasgo de irresponsabilidade sem paralelo entre os chefes de Estado, Bolsonaro minimizou a maior pandemia desde a gripe espanhola, que exterminou 40 milhões de pessoas entre 1918 e 1920. Em pleno início do período mais agudo da covid-19, pediu "volta à normalidade".

Fez mais. Ironizou o pedido de calma levado ao ar no dia anterior pelo Jornal Nacional e novamente culpou a mídia pela "histeria".

Além disso, o discurso do presidente jogou para "algumas poucas autoridades estaduais e municipais" o ônus de impopularidade por seguirem acertadamente as orientações da Organização Mundial de Saúde.

"Os empregos devem ser mantidos. O sustento das famílias deve ser preservado", afirmou, antes de pedir "o fim da proibição dos transportes, o fechamento do comércio e o confinamento em massa". Como se estivesse em campanha eleitoral (e não está?), transferiu para seus possíveis adversários em 2022 o descontentamento da população que será prejudicada pelas medidas.

Para todos os brasileiros, Bolsonaro repetiu fake news de que o médico Drauzio Varella teria, como ele, dado pouca importância ao coronavírus. A afirmação se baseou em um vídeo antigo que Varella postara em suas redes sociais meses antes e depois foi retirado.

A imagem acabou usada indevidamente pelo ministro Ricardo Salles e pelo senador Flávio Bolsonaro. As postagens dos dois foram retiradas do ar pelo Twitter e Salles acabou por se desculpar. Bolsonaro manteve a mentira.

Para arrematar, ainda repetiu a citação à cloroquina, remédio que não tem eficácia comprovada contra o coronavírus, é perigoso quando usado em automedicação e está em falta nas farmácias para tratamento das doenças para as quais realmente é indicado: malária e males reumáticos.

Na noite de terça-feira 24, o Brasil pôde confirmar o grau de descolamento da realidade que acomete a autoridade máxima que deveria conduzir o país em meio a uma das maiores crises sanitárias já vividas pela humanidade, com as esperadas consequências econômicas.

Tudo fica ainda mais grave quando se constata que essa privação de sentidos não é problema de um só. Empresários de algum destaque se pronunciaram nos últimos dias em apoio a essa tese estapafúrdia. Também há lideres religiosos que compartilham tal delírio.

É assim que o país faz seus preparativos para entrar na fase mais grave da transmissão da covid-19, que o presidente classificou de "gripezinha".

Com o fundo musical da batucada das panelas que ecoaram em janelas de várias cidades do Brasil, Bolsonaro mostrou que as pessoas de bom senso e equilíbrio que quiserem realmente tomar providências para minimizar os prejuízos da pandemia terão que se unir para superar as dificuldades criadas por aquele que deveria ser o seu maior apoio e é o seu maior entrave nesse momento difícil: o governo federal.

Chico Alves