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Chico Alves

Após ser ameaçado, Boulos confirma ato domingo e critica milícias políticas

Guilherme Boulos, coordenador do MTST - Alice Vergueiro/Estadão Conteúdo
Guilherme Boulos, coordenador do MTST Imagem: Alice Vergueiro/Estadão Conteúdo

Colunista do UOL

05/06/2020 04h00

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Alvo de ameaças com o objetivo de fazê-lo desistir da manifestação marcada para domingo pelas torcidas organizadas para a Avenida Paulista, o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Guilherme Boulos, garantiu que não vai mudar os planos. "A democracia não pode ser intimidada", disse ele à coluna.

A tentativa de intimidação foi postada originalmente em um grupo de WhatsApp bolsonarista intitulado "Armas S/A Sudeste". O teor da ameaça foi divulgado pela jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo: "Guilherme Boulos mora numa casa no bairro do Campo Limpo, no sul de São Paulo. Domingo vamos atirar em todo o bairro até acertar ele".

Boulos fará registro do fato em uma delegacia.

Nessa entrevista, o coordenador dos Sem Teto fala também sobre o pedido de alguns líderes de partidos oposicionistas no Senado para que a manifestação de domingo não seja realizada, tanto por causa do risco de contaminação pelo coronavírus, quanto pela possibilidade de que um eventual distúrbio possa ser usado pelo governo como pretexto para reações autoritárias.

UOL - Como a ameaça chegou até você?

Guilherme Boulos - Nós recebemos de gente que acompanha o WhatsApp e viu uma mensagem que estava circulando hoje em grupos bolsonaristas. Sobretudo em um grupo de clubes de tiro. Conversei com meu advogado e decidimos fazer um boletim de ocorrência, embora a gente não tenha a identificação de quem mandou. Não temos a indicação dos números que enviaram. Vamos fazer o boletim de ocorrência muito mais com caráter de denúncia e de prevenção, para que se saiba que existe ameaça e de algum modo o estado se responsabilize pela situação

Evidente, eu tenho uma preocupação com a segurança. Mas é inadmissível que alguém seja ameaçado, intimidado por posições políticas. Esse é um dos sintomas da escalada autoritária que a gente vive no país.

Você pensa em desistir da manifestação de domingo?

Não altera nada esse tipo de ameaça. Não é a primeira vez que recebo algo assim na militância, na atuação política que eu tenho. Obviamente isso não intimida. Mas é um sinal dos tempos, é preocupante, pode não ser só bravata. É a mesma turma que está agredindo pessoas nas ruas, é a mesma turma que acampa em Brasília dizendo que tem armas no acampamento. Então, nós vivemos de fato a formação de milícias políticas no país estimuladas pelo presidente da República. Isso não é qualquer coisa. Manifestações ocorrerão e eu estarei lá. A democracia não pode ser intimidada.


Acredita que essas milícias políticas ligadas diretamente a Bolsonaro?

Circulou um vídeo há algumas semanas nas redes sociais, postado pelo Carluxo (Carlos Bolsonaro), em que apareciam pessoas de clubes de tiro, com camisetas do presidente, gritando palavras de ordem do Bolsonaro e atirando. Para além da segurança pessoal minha e de outras lideranças dos movimentos sociais, o que eu acho mais grave é que tem uma formação miliciana. Na América Latina nós vimos isso acontecer no México, na Colômbia, na Bolívia, que é a formação de milícias políticas que executam.

Atuam como braço paramilitar de grupos políticos. O Bolsonaro estimula isso. Toda a política e o discurso dele em torno da liberação de armas, estimular a violência, manter esses pitbulls a todo momento raivosos, estimula levar a pauta da política para a arena da violência. Qualquer coisa que possa acontecer com lideranças da oposição num contexto como esse é de responsabilidade dele.

Quando você flexibiliza o acesso a armas e dificulta a identificação das munições, que é parte das medidas que ele tem tomado, é como se fosse um salvo conduto para a milícia. São medidas que só favorecem pessoas que querem cometer esses tipos de crimes com armas.

Acredita que os políticos e instituições já se deram conta da gravidade que isso representa?

Me parece que não. O Parlamento não vetou iniciativas de Bolsonaro que vão no sentido de flexibilizar a identificação e a quantidade de munições que cada um deve portar. Há medidas em curso que podem parecer técnicas, mas que na prática favorecem milicianos. Não me parece que esse alarme já tenha tocado para uma parte dos setores políticos do Brasil.

Representantes da Rede, PSB, PT, PDT, Cidadania e PSD no Senado pediram que as pessoas não compareçam às manifestações por causa da pandemia. O que muda depois disso?

Não foram os partidos, mas líderes desses partidos no Senado. Eu vi uma nota do PT, inclusive, reafirmando o seu apoio às manifestações. O PSOL, que é o partido em que eu milito, mantém o apoio aos atos, em nenhum momento assinou qualquer nota desse gênero. É uma opinião de algumas lideranças do Senado que acho legítima.

De fato existem questões a serem observadas em relação às mobilizações. Questões relacionadas à saúde pública, ao isolamento, e questões relacionadas a garantir a segurança das manifestações e evitar o confronto. Nós estamos atentos a isso, preocupados com isso, e estamos tomando medidas concretas.

Uma delas, por exemplo, é deslocar uma brigada de saúde do Povo Sem Medo que vai estar aqui em São Paulo, na concentração da Avenida Paulista. Vai ter distribuição de máscaras, álcool gel. Todos os organizadores estão defendendo que se pratique o distanciamento de um metro e meio entre os manifestantes.

Gostaria muito que o Brasil pudesse dedicar todas as forças para enfrentar a pandemia. Infelizmente, além de enfrentar a pandemia nós estamos sendo obrigados a enfrentar um governo de inclinações fascistas e ditatoriais. Essa não é uma escolha nossa. É um peso que o Bolsonaro impôs ao país. Temos toda a preocupação com saúde pública, não somos irresponsáveis como ele que sai sem máscara, pegando gente, crianças durante a manifestação, mas nós também temos responsabilidade com a democracia e o futuro do Brasil.

Não podemos deixar as ruas apenas para manifestações de fascistas que agridem jornalistas, que não toleram quem pensa diferente, acampam com arma na Praça dos Três Poderes, que batem em enfermeiro. Não podemos permitir que as ruas fiquem à mercê dessa gente.

O roqueiro Tico Santa Cruz sugere que, para evitar distúrbios e confrontos com a polícia, as manifestações tenham uma coordenação suprapartidária e com a colaboração de torcidas, sindicatos e outras categorias. O que acha?

Essas não foram manifestações que surgiram a partir de uma articulação dos movimentos sociais ou dos partidos. Surgiram de forma espontânea a partir a articulação de torcidas antifascistas. É muito diferente. Você tem coordenações locais, tem por vezes gente que nunca tinha ido numa manifestação e está indo agora. Não é possível ter um controle absoluto e centralizado de todas essas manifestações.

Se você fala em orientação de medidas de proteção à saúde e para evitar o conflito e as provocações, é isso que nós estamos buscando fazer. O Povo Sem Medo vai soltar uma nota com esse teor, estivemos reunidos com as torcidas antifascistas e com representantes do movimento negro que também vão fazer as suas manifestações. Estamos fazendo todo o esforço para que não haja conflito e que seja preservada a saúde pública.

O que pode dizer para um jovem que está lendo essa entrevista e pensa em ir à manifestação de domingo sem estar atento para o risco de uma reação autoritária do governo a qualquer possível distúrbio?

Eu entendo a revolta das pessoas em relação ao bolsonarismo. Entendo a revolta a uma horda de fascistas que não respeita a diversidade, que não tolera a diferença. Compreendo a raiva e irritação de muita gente com o que está acontecendo no Brasil. Mas eu não creio que a melhor forma de a gente descarregar essa raiva seja com a confrontação física nas ruas. Porque a questão é que vai ter um dia seguinte. Quem vai se aproveitar disso no dia seguinte?

Com esse desdobramento o que vai acontecer é o bolsonarismo criminalizando manifestação, atacando quem luta por democracia como se fosse terrorista e utilizando o aparato do Estado, a Polícia Federal, a Abin, para poder criminalizar, atacar e perseguir essas lideranças e jovens. Não é isso que nós queremos. Nós queremos fazer uma manifestação para combater o fascismo e não para permitir que o fascismo se utilize dela para se fortalecer.

O presidente classificou os manifestantes antifascistas de "terroristas" e "marginais" e o vice-presidente Mourão escreveu artigo no Estado de S. Paulo em que criminaliza as manifestações contrárias ao governo. O que acha dessas posições?

Em relação ao Bolsonaro, acho que ele tem muita propriedade para falar de terrorismo. Afinal, foi ele que fez um plano para explodir um quartel quando era capitão do Exército. O livro do Luiz Maklouf ,"O cadete e o capitão", mostra com minúcias o plano e como ele se arranjou para poder ser absolvido no tribunal militar. Tem propriedade para falar sobre assunto, mas está falando bobagem. Terrorista é quem quer fechar Congresso, é quem agride jornalista, quem quer censurar a imprensa, quem defende torturador. Terrorista é o Brilhante Ustra. Não quem vai para a rua defender a democracia. Terrorista é o Curió, que ele recebeu para almoçar no Palácio.

Quanto a Mourão, caiu a máscara. Ele tentou posar no início do governo como se fosse mais moderado, mediador. Ali está revelado quem é o general Mourão, lamentavelmente. Alguém que não consegue conviver com a diversidade, que não aceita a democracia e que acha a única posição legítima é a dele e do grupo dele.

Como avalia a possibilidade de o presidente Bolsonaro mobilizar a Força Nacional para acompanhar a manifestação em Brasília?

É descabido, próprio de um governo autoritário. Olha que loucura: nós tivemos neste ano manifestação em Brasília, em frente ao Quartel General do Exército, a favor do AI-5. Tivemos manifestação na Praça dos Três Poderes em que jornalista do Estado de S. Paulo foi agredido, espancado. Tivemos inúmeras manifestações de cunho agressivo, pedindo fechamento do Congresso, do Supremo. E o Bolsonaro em nenhum momento cogitou qualquer força repressiva. Porque são partidários dele, que têm o mesmo pensamento autoritário que ele partilha e estimula.

Agora teremos uma manifestação em que a bandeira é a democracia. Essa foi a bandeira do último domingo e será a do próximo. Aí se convoca Força Nacional. Espero francamente que as Forças Armadas, que são de Estado e não de governo, não se submetam ao delírio autoritário de um governante de plantão.