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Chico Alves


A memória de um rei negro está em perigo

Joãozinho da Gomeia - Arte: Camila Pizzolotto
Joãozinho da Gomeia Imagem: Arte: Camila Pizzolotto
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

19/07/2020 04h00

O bairro Vila Leopoldina seria apenas mais um dos recantos esquecidos do município de Duque de Caxias, na região pobre da Baixada Fluminense, se não fosse por João Alves Torres Filho. Foi ali, em 1951, que ele, pai de santo conhecido como Joãozinho da Gomeia, instalou o seu terreiro. Por causa dessa escolha, o pedaço de terra lamacento transformou-se em lugar de referência espiritual para personalidades como os presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, o compositor Dorival Caymmi ou a cantora Elza Soares.

Joãozinho já era famoso quando viajou da terra natal, a Bahia, para o Rio de Janeiro. Com sua figura imponente, sem receio de se mostrar homossexual, apesar do preconceito, e dono de personalidade marcante, ele ganhou projeção na imprensa. Ao lado da fama, manteve a importância religiosa. Quando morreu, em 1971, deixou 4.600 filhos e netos de santo. Como prova do respeito que conquistou, o enterro reuniu mais de 5 mil pessoas em Caxias e foi noticiado na imprensa como o "funeral para um rei negro".

No desfile deste ano na Sapucaí, Joãozinho da Gomeia foi tema do desfile da escola de samba caxiense Grande Rio, que levantou a arquibancada e ficou em segundo lugar no Grupo Especial.

Agora, a memória desse personagem tão importante para a história do candomblé é colocada em risco justamente pelo prefeito da cidade que ele escolheu para exercer a religião amada. Mesmo sabendo que o processo de tombamento pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico (Inepac) está em fase final, Washington Reis quer derrubar o que restou do terreiro para instalar uma creche.

Terreno abandonado de Joãozinho da Gomeia - Reprodução de vídeo - Reprodução de vídeo
Área abandonada onde funcionou o terreiro de Joãozinho da Gomeia
Imagem: Reprodução de vídeo

"Não somos contra a cheche, mas aquele é um lugar sagrado", protesta a mãe de santo Seci Caxi, sucessora de Joãozinho da Gomeia. "Ali tem uma casa de santo com um metro e meio de profundidade, onde foram feitas escavações arqueológicas. Estamos em fase final do processo de tombamento". A Prefeitura está sendo questionada pelo Ministério Público Federal.

Procurado pela coluna para tratar do assunto, o prefeito Washington Reis, que é evangélico, ainda não respondeu. Em entrevistas recentes, alegou que o terreno já foi desapropriado e até foi feita a emissão de posse. Reis diz que está aberto a conversar sobre um projeto alternativo, mas desde que o MP apresente verbas, Insiste que não há utilidade mais nobre para um terreno que está abandonado e sujo que abrigar uma creche. "Não foi tombado", disse ele à TV Globo.

Diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial do Inepac, Leon Araújo confirma que o processo de tombamento está em fase final. "A pesquisa histórica está concluída, falta o laudo arquitetônico que não foi feito por causa da pandemia", explica. "O espaço é importante como referência da memória da cultura negra, religiosa e da imigração dos nordestinos para essa região".

Para protestar contra a construção da creche, adeptos do candomblé, um pastor e defensores da cultura local fizeram ontem ato no solo sagrado.

Joãozinho da Gomeia na capa da revista O Cruzeiro - Reprodução - Reprodução
Joãozinho da Gomeia na capa da revista O Cruzeiro em reportagem sobre o candomblé
Imagem: Reprodução

Uma das mais emocionadas era Mãe Seci. Foi Joãozinho, Ou Tatalondirá, como também era chamado, quem fez o parto que a trouxe à luz. "Minha mãe era braço direito dele e veio de Salvador com outras 45 pessoas que mandou trazer da Bahia, depois que a construção do terreiro estava adiantada", conta.

Considerado em sua época como o babalorixá mais famoso do país, ele teria servido de inspiração para que Chico Anysio criasse o personagem "Painho". No carnaval de 1956 chocou os adeptos do candomblé ao aparecer na imprensa fantasiado de vedete. Em uma entrevista à revista O Cruzeiro, explicou que não tinha afrontado a religião.

"Os orixás sabem que a gente é feito de carne e osso e toleram, superiormente, as inerências da nossa condição humana, desde que não abusemos do livre arbítrio", disse. O repórter comentou de forma irônica que ele estava falando difícil. Joãozinho rebateu: "Você está pensando que babalorixá tem que ser analfabeto?"

Notícias sobre Joãozinho da Gomeia - Reprodução - Reprodução
Notícias sobre o enterro de Joãozinho da Gomeia
Imagem: Reprodução

Foi com essa postura firme que ele cultivou a admiração dos frequentadores de seu terreiro, desde anônimos até políticos poderosos.

A sucessora de Joãozinho da Gomeia lamenta a possibilidade de ele estar sendo alvo de preconceito mais uma vez.

"Joãozinho sofreu discriminação naquela época por ser homossexual, mas nunca por motivos religiosos", diz Mãe Seci. "Será que tanto tempo depois ele está sendo vítima de intolerância religiosa?"

Para tirar a dúvida, basta que o prefeito Washington Reis responda à seguinte questão: se o local onde quer construir a creche fosse considerado sagrado por evangélicos ou católicos, o tratamento seria o mesmo?

Chico Alves