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Chico Alves


Docentes "lotam" WhatsApp de políticos e veem movimento inédito pelo Fundeb

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Imagem: Reprodução
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

28/07/2020 04h00

Criada para divulgar os atos do Poder Legislativo, a TV Câmara nunca teve como objetivo ser campeã de audiência. No YouTube, muitas de suas transmissões mal chegam a mil visualizações, e em ocasiões importantes esse número gira em torno de 30 mil.

Na terça-feira 20, porém, bateu record de espectadores: a transmissão da votação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) teve 523 mil acessos. Esse é apenas um dos vários indicadores da gigantesca mobilização que os professores de todo país fizeram para pressionar deputados federais a aprovar o relatório do Fundeb sem alterações.

Diante da ameaça dos parlamentares governistas de desvirtuar o texto da deputada Professora Dorinha (DEM-TO), grupos em favor da educação, mestres, pais de alunos e prefeitos fizeram uma das maiores articulações populares já vistas em favor de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC).

"Nem na votação do Plano Nacional de Educação eu vi um movimento como esse", diz a deputada Dorinha. O resultado foi acachapante, 499 votos a favor do relatório e somente sete contra. O volume de recursos para o ensino foi ainda maior que o previsto inicialmente. Agora, a PEC será avaliada pelo Senado.

O grande público que assistiu à votação da Câmara pelo YouTube participou ativamente, enviando uma enxurrada de palavras de ordem e a hashtag #AprovaFundeb. Essa foi a parte mais visível do trabalho de convencimento que começou semanas antes em todas as regiões do país e entupiu a caixa de emails e o WhatsApp dos deputados com apelos a favor do texto original.

"Fizemos o trabalho de divulgação que fazemos sempre em votações importantes para a categoria, mas dessa vez a pressão maior partiu de fora do sindicato, foi orgânica", admite Gustavo Miranda, coordenador-geral do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Estado do Rio de Janeiro.

6.nov.2018 - Audiência pública e reunião ordinária. Deputada Professora Dorinha Seabra Resende (DEM-TO) - Michel Jesus - 6.nov.2018/Câmara dos Deputados - Michel Jesus - 6.nov.2018/Câmara dos Deputados
Relatora da PEC do Fundeb, deputada Professora Dorinha (DEM-TO)
Imagem: Michel Jesus - 6.nov.2018/Câmara dos Deputados

Dos computadores de casa, professores de todos os estados fizeram a sua parte. "Eu passei quase 24 horas enviando mensagem, desde a véspera da votação até o final", diz Fabiana Gomes, diretora do Centro Municipal de Educação Infantil Sitio do Pica-Pau Amarelo, localizado em Palmas, capital de Tocantins.

Como outros colegas, Fabiana seguiu a orientação da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e enviou aos pais de alunos e à comunidade vídeos explicativos sobre a importância do fundo. No site da entidade, um "kit mobilização" ensinava como usar a internet para pressionar os políticos.

Deu certo. Vários parlamentares sentiram o peso dessa articulação antes, durante e depois da votação. O deputado Júnior Bozzella, presidente do PSL de São Paulo, recebeu inúmeras mensagens de filiados do interior paulista relatando que eleitores não votariam mais na legenda por causa dos seis pesselistas que se colocaram contra o Fundeb. "É preciso divulgar que a orientação do PSL foi votar a favor", pedia um dos áudios enviados a Bozzella.

O disparo de textos e imagens foi tão massivo que mesmo os parlamentares favoráveis ao Fundeb foram atingidos. "Entre sábado e terça-feira (dia da votação) recebi cerca de 500 mensagens de WhatsApp em favor do relatório da deputada Dorinha. Nesse espaço de tempo, em situação normal, costumo receber no máximo 50 mensagens políticas", diz o deputado Ildivan Alencar (PDT-CE). Ele foi um dos responsáveis pela mobilização dos professores e pais de alunos cearenses. "Na hora da votação, muita gente parou o que fazia para assistir. Foi clima de Copa do Mundo", define Alencar.

Fabiana Gomes, diretora de escola em Tocantinhs - Reprodução - Reprodução
Fabiana Gomes, diretora de escola em Palmas, Tocantins
Imagem: Reprodução

Mesmo com a limitação do isolamento social praticado durante a pandemia, houve também ações presenciais. No Rio Grande do Sul, 118 dirigentes de escolas fizeram um documento em defesa do Fundeb e uma comissão levou ao governador e à Assembleia Legislativa. O texto foi enviado também à bancada federal gaúcha.

"Há 30 anos participo de campanhas em favor da educação e nunca vi movimento com potência igual", diz Neiva Lazzarotto, vice-diretora do Colégio Estadual Emílio Massot , de Porto Alegre.

Curiosamente, enquanto essa enorme mobilização se desenrolava, a hashtag #FundebNão chegou na tarde de terça-feira passada aos assuntos mais comentados do Twitter, turbinado por militantes bolsonaristas — no início da negociação, o governo Bolsonaro propôs que não houvesse fundo em 2021.

Professor da Universidade da Virginia e especialista em Antropologia da Tecnologia, o brasileiro David Nemer explica o contraste entre a escalada da hashtag de contestação ao Fundeb aos trending topics, enquanto a mobilização orgânica em apoio ao relatório da deputada Dorinha batia recordes.

Rodrigo Maia chora ao ser homenageado pela deputada Dorinha Seabra durante apresentação do relatório do novo Fundeb - Reprodução/Youtube - Reprodução/Youtube
Rodrigo Maia chora depois da aprovação do Fundeb
Imagem: Reprodução/Youtube

"Muitos enxergam os trending topics como se fossem um espelho da realidade, mas sabemos que no Twitter há movimentação de robôs e contas inautênticas", afirma ele. "No caso dos bolsonaristas, eles fazem hashtags bombarem, mas na rua constatamos que não têm essa mobilização toda".

Nemer explica que de uma maneira geral esse tipo de ação tem efeito de inibir um grupo oponente, ao passar a ideia de que há supremacia de um dos lados. "É como pesquisa de intenção de voto, quando diz que um dos candidatos já ganhou", diz.

Na votação do Fundeb, no entanto, esse expediente não adiantou. "Não foi só um movimento corporativo, recebi muitas mensagens de pais, mães e estudantes", diz a deputada Dorinha.

A partir de agora, os senadores que se preparem. "Vamos repetir essa mesma mobilização para garantir a aprovação da proposta no Senado", diz a vice-diretora Fabiana, de Tocantins, já prevendo uma nova maratona à frente do computador para mais uma vez pressionar os políticos, até que o novo Fundeb seja oficializado.

Professores, estudantes e pais de alunos mais uma vez estarão na contramão da impressão generalizada de que a sociedade civil brasileira está apática e não participa do processo decisório do país.

Chico Alves