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A morte das estradas do Pantanal, descritas pelo escritor Mia Couto

Estrada em meio ao incêndio do Pantanal - Reprodução de vídeo - Instituto do Homem Pantaneiro
Estrada em meio ao incêndio do Pantanal Imagem: Reprodução de vídeo - Instituto do Homem Pantaneiro
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

28/09/2020 13h14

As imagens do incêndio que devasta a natureza no Pantanal comprovam: em tragédias como essas, além das árvores, dos bichos e dos rios, as estradas também morrem.

Quem observou esse tipo de óbito foi o escritor moçambicano Mia Couto. Não se referia à destruição ambiental, nem ao Pantanal. No livro "Terra sonâmbula", fala de seu país, que por décadas foi destroçada por uma guerra civil

Couto não se refere às estradas como estrutura física de asfalto e cimento, trata dessas vias como ponto de observação para tudo o que acontece em volta dela. Se às suas margens há belas paisagens, gente alegre, clima agradável, as estradas estão vivas. Se só existe devastação no entrono, as rodovias morrem.

As imagens aéreas das estradas enfumaçadas do Pantanal, com todas as terras calcinadas nas laterais, se enquadram perfeitamente na descrição do escritor moçambicano.

Se para quem está longe das chamas que destroem o meio ambiente brasileiro ainda é difícil imaginar o que é exatamente essa devastação, aí vai o primeiro parágrafo de "Terra sonâmbula", no capítulo que leva o nome de "A estrada morta". Basta trocar a palavra "guerra" por "incêndio" e a palavra "hienas" por "onças", para que o leitor tenha a real dimensão da tragédia pantaneira:

"Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos, só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte".

*Errata: O genial Mia Couto nasceu em Moçambique, não em Angola, como publicado antes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.