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Em matéria de debate presidencial na TV, o Brasil leva a melhor

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

30/09/2020 07h34

Foram os americanos que fizeram o primeiro debate entre candidatos a presidente transmitido pela TV, no ano de 1960. Na época, Richard Nixon e John F. Kennedy se apresentaram aos eleitores dos Estados Unidos em clima de seriedade, explicando suas propostas na linguagem formal que políticos usavam naquela época. Cada um respeitava o tempo do outro e a maior ousadia possível era um discreto olhar de reprovação que um dos presidenciáveis lançava ao oponente quando discordava de alguma coisa.

Em sessenta anos, o debate televisivo teve muitas modificações por lá, como era de se esperar. Algumas para melhor, como a injeção de descontração e o avanço tecnológico na transmissão. Mas a verdade é que essa instituição americana não envelheceu bem.

A frustração mundial com o confronto entre Donald Trump e Joe Biden é a prova disso.

Em uma época tão conturbada para a política em todas as partes do planeta, a eleição presidencial nos Estados Unidos ganha importância ainda maior do que normalmente tem. Por isso, a expectativa sobre o programa de ontem era gigantesca.

O que se viu, porém, foi um passeio superficial por vários temas, sem qualquer aprofundamento. As constantes interrupções de Trump sobre Biden impediam o telespectador de entender exatamente o que cada um sugeria como solução para os problemas.

Para piorar, os dois debatedores estão longe de serem os melhores espécimes de políticos que já passaram pela terra do Tio Sam. De um lado, estava a absoluta falta de carisma de Biden, que recorria a um sorriso falso em resposta aos ataques. Do outro, o conhecido estilo canastrão de Trump, com suas grosserias e provocações em série, sem qualquer respeito pelas regras do debate.

Pouco sobrou em termos de propostas. Ainda ecoam expressões como "palhaço" e "cachorrinho do Putin", pelo lado do candidato democrata, e frases como "você não tem nada de inteligente", por parte do republicano.

Apesar de tão criticados, é preciso reconhecer que os debates presidenciais apresentados na TV brasileira são bem melhores. Quem diz que o formato nacional engessa a discussão ao cortar o microfone de um dos candidatos quando o outro está falando deve ter mudado de ideia.

Essa talvez seja a principal e singela diferença a nosso favor. Ao garantir a palavra a um candidato por vez, as TVs nacionais dão aos eleitores a chance de entender que tipo de propostas eles realmente têm para cada questão.

Na mixórdia que os telespectadores de todo mundo assistiram ontem, foi muito difícil tirar conclusões racionais. Mesmo no campo da ironia, não foram detectadas tiradas inteligentes, capazes de massagear o cérebro do público. Houve apenas troca de ataques rasos, dignos de garotos da quarta série.

Não deixa de ser um indício de erosão democrática que um dos principais recursos para definição do voto na maior potência planetária tenha se transformado em um barraco semelhante a programas sensacionalistas como "Casos de Família", de Christina Rocha, ou ao "Teste do DNA", de Ratinho. Espera-se que os próximos debates sejam melhores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.