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Investigação sobre Flávio produz também questionamentos para Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro - Reprodução de vídeo
Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro Imagem: Reprodução de vídeo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

29/09/2020 12h24

É questão de tempo a denúncia do Ministério Público do Rio contra o senador Flávio Bolsonaro e seu ex-assessor, Fabrício Queiroz, por acusação de comandar o esquema de rachadinha nos tempos em que os dois davam expediente na Assembleia Legislativa. A cada nova revelação da imprensa sobre a circulação de dinheiro vivo entre os servidores do gabinete do então deputado, a situação fica mais insustentável.

A novidade de hoje, trazida pelos jornalistas Gabriela Sá Pessoa, Amanda Rossi, Igor Mello e Flávio Costa, do UOL, é que assessoras da Alerj repassaram dinheiro ao advogado de Flávio. Essas favas parecem já estar contadas e a denúncia está a caminho.

A investigação da rachadinha da Alerj, porém, trouxe informações sobre a movimentação de dinheiro do presidente Jair Bolsonaro que deverão ser também investigadas. A mais rumorosa delas foi o depósito de R$ 89 mil feito na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro por Queiroz e sua mulher, Márcia.

A explicação inicial dada pelo presidente para a movimentação não faz sentido. Disse que o depósito para Michelle foi pagamento de um empréstimo de R$ 40 mil que ele teria feito a Queiroz. Por qual motivo essa quantia foi depositada na conta da primeira-dama e não na do próprio presidente, não se sabe.

Mais intrigante: se o empréstimo foi de R$ 40 mil, por que a devolução foi de R$ 89 mil?

A utilização de dinheiro em espécie entre as ex-mulheres de Bolsonaro - que compraram imóveis com grana viva - também indica que a intimidade financeira do presidente é incomum.

Soma-se à coleção de estranhezas a movimentação exótica dos 126 funcionários que o então deputado Bolsonaro empregou em seu gabinete de 1991 a 2008.

Mesmo entre integrantes dos grupos mais importantes de apoio ao presidente, é difícil quem ache esse um assunto fácil de ser ignorado.

É o caso dos generais. Ouvidos pela coluna, no início do mês, oficiais que chegaram ao topo da carreira e hoje estão na reserva se mostraram incomodados com a falta de esclarecimentos satisfatórios para a história.

Um deles, o general Paulo Chagas, foi claro: "Tudo que está sendo investigado terminará na conta de Jair Bolsonaro. Como provar que não sabia de nada e que foi surpreendido?".

Se o prosseguimento das investigações fizerem com que questionamentos como esse se tornem mais frequentes, o inqulino do Palácio do Planalto correrá o risco de perder a capa de paladino anticorrupção - papel que o acerto com o antes execrado Centrão já tornou frágil ao extremo.

Por isso, os novos fatos relativos à investigação de Flávio Bolsonaro e o suposto esquema de rachadinha devem ser acompanhados com bastante ansiedade pelo presidente. Não só porque podem definir o futuro do filho, mas também porque podem conter indícios sobre como será o seu próprio futuro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.