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Chico Alves

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, os cegos perdidos em meio ao tiroteio

Paulo Guedes vai se especializando na arte de contornar balões de ensaio que irritam o presidente Bolsonaro - SERGIO LIMA/AFP
Paulo Guedes vai se especializando na arte de contornar balões de ensaio que irritam o presidente Bolsonaro Imagem: SERGIO LIMA/AFP
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

30/09/2020 04h00

No primeiro ano de governo, sem base de apoio no Congresso e com lideranças de primeira viagem, o governo de Jair Bolsonaro teve sucessivas derrotas no Legislativo. Desde que resolveu conquistar o apoio do Centrão, grupo de parlamentares antes tão achincalhado pelos bolsonaristas, imaginou-se que o presidente poderia, enfim, mostrar a que veio.

A confusão das últimas semanas frustra essa expectativa. Bolsonaro e seu posto Ipiranga, o ministro Paulo Guedes, se mostram mais embaralhados que nunca.

Em termos de confusão, o cacique do Ministério da Economia é um fenômeno. Em 2019, sua empáfia colocou em risco a reforma da Previdência e atrasou o envio das reformas administrativa e tributária. Além disso, provocou conhecidos arranca-rabos com os congressistas.

Em 2020, já despido da aura de grande gênio da Economia e com o poder de influência cada vez mais reduzido, Guedes continua tocando o terror no governo, enfiando os pés pelas mãos a todo momento.

Só para falar nos episódios mais recentes, houve a grande bola fora de prometer criar o programa Renda Brasil às custas do congelamento por dois anos dos reajustes dos aposentados. Bolsonaro percebeu a impopularidade que isso poderia causar, jogou a ideia no lixo e ameaçou dar cartão vermelho para o autor da sugestão.

Em atitude que revela muito sobre a conduta do ministro, Guedes deixou que a culpa pelo balão de ensaio recaísse somente sobre um dos subordinados, como se alguém de sua equipe pudesse tornar público uma sugestão dessas sem passar pelo seu crivo.

"O cartão vermelho não foi para mim", esquivou-se, repassando a batata quente para o secretário da Fazenda, Waldery Rodrigues. Depois de uns dias na corda bamba, Rodrigues continua no ministério.

Depois do fiasco, Bolsonaro disse que ninguém mais poderia falar em Renda Brasil no seu governo. No dia seguinte foi convencido do contrário. Para que o presidente não desmentisse a si próprio, o Renda Brasil mudou de nome e virou Renda Cidadã.

A última tentativa de cavar no orçamento recursos para custear o benefício nasceu de experientes políticos do Centrão e foi apresentada pelo presidente na segunda-feira como se fosse jogada de mestre.

A péssima reação do mercado à ideia de usar dinheiro dos precatórios e do Fundeb para esse fim mostrou que o lance, na verdade, foi digno de perna de pau.

Até agora, ninguém se entende no governo sobre o destino que terá essa proposta. O líder na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR) diz que a ideia está valendo. Já o secretário do Tesouro, Bruno Funchal, alerta que é preciso considerar os sinais negativos do mercado.

Como se a barafunda fosse pequena, Paulo Guedes arranjou briga com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que ontem foi ao Twitter acusá-lo de interditar o debate da reforma tributária.

Sem ter mais Posto Ipiranga que lhe sirva de salvação e sem entender bulhufas de economia, como ele próprio admite, Bolsonaro só sabe que quer ter o tal Renda Cidadã para garantir a reeleição. Se a iniciativa for do Congresso, melhor — ele ficaria com o bônus, e os deputados com o ônus.

Embora sem saber como alcançá-lo, Bolsonaro ao menos tem um objetivo definido. Outrora tido como brilhante, Guedes, ao que parece, nem isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.