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Chico Alves

Comportamento de Bolsonaro em relação à CoronaVac é criminoso

Presidente usou episódio que atrasa pesquisa sobre vacina no Brasil para se vangloriar sobre um adversário político - GABRIELA BILó/ESTADÃO CONTEÚDO
Presidente usou episódio que atrasa pesquisa sobre vacina no Brasil para se vangloriar sobre um adversário político Imagem: GABRIELA BILó/ESTADÃO CONTEÚDO
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

10/11/2020 13h09Atualizada em 11/11/2020 11h05

Depois de oito meses de pandemia, os brasileiros já aprenderam que não podem contar com a empatia do presidente da República com relação ao sofrimento causado pela covid-19. Jair Bolsonaro demonstrou várias vezes que coloca seus objetivos políticos e devaneios negacionistas à frente da saúde da população.

Em ocasiões anteriores, tratando dos testes com a vacina CoronaVac, o presidente deu declarações que levantaram dúvidas sobre a possibilidade de determinar à Anvisa algum tipo de boicote, simplesmente porque o medicamento é desenvolvido em convênio com o governo de São Paulo, comandado por um adversário. O diretor da agência negou a possibilidade de tal descalabro acontecer.

Por alguns dias, tudo parecia ter voltado aos trilhos da institucionalidade, com o Ministério da Saúde autorizando a compra da matéria básica para a produção da vacina pelo Instituto Butantan.

Desde ontem, porém, a questão voltou a ser tratada de forma duvidosa. Em resposta à comunicação de um evento adverso grave comunicado pelo Butantan no dia 6, a Anvisa suspendeu os testes com a CoronaVac, desenvolvida por um laboratório chinês.

"Nem eu e nem os outros diretores recebemos nenhum telefonema avisando", lamentou Dimas Covas, diretor do Instituto paulista. A comunicação foi feita pela Anvisa por email às 20h40. Vinte minutos depois a informação já tinha sido divulgada à imprensa.

Covas mostrou-se indignado, já que o procedimento esperado era que o evento adverso fosse estudado em conjunto pelo Butantan e pela Anvisa. Uma reunião com esse objetivo estava marcada para hoje. Segundo Covas repetiu várias vezes na entrevista coletiva desta manhã, o evento adverso grave — que é mantido em sigilo, mas seria o óbito de um voluntário — não tem relação com a vacina.

Alegria no Facebook

Como se o episódio já não fosse ruim o bastante, o governo passou da irresponsabilidade ao comportamento criminoso.

Enquanto os brasileiros ameaçados pela pandemia lamentavam o ocorrido, o perfil de Bolsonaro no Facebook demonstrou alegria pelo que algumas mentes doentias imaginam ser uma vitória pessoal sobre o governador paulista.

Em resposta a um dos seguidores, o perfil do presidente no Facebook publicou a seguinte afirmação: "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Dória queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la (sic). O Presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha".

Na verdade, a Anvisa não tornou público que tipo de evento adverso grave ocorreu, apenas listou que morte, invalidez ou outras anomalias podem receber essa classificação. O texto de Bolsonaro faz crer que todos esses efeitos foram verificados, o que não é verdade.

Bolsonaro torce contra Doria, enquanto segue a pandemia

Confuso como sempre, Bolsonaro usou o ocorrido para se mostrar leviano como nunca.

Lançou mão de falsas informações para desacreditar a CoronaVac, esquecendo-se que a própria vacina de Oxford, desenvolvida em convênio com o governo federal, teve os testes interrompidos há algumas semanas depois que um dos voluntários teve reação adversa no Reino Unido. Com a confirmação de que o experimento é seguro, os testes foram retomados. Além disso, um dos voluntários brasileiros da vacina de Oxford morreu — ele havia tomado placebo.

Espera-se que o evento grave seja investigado e, caso confirmada a segurança, que continuem as testagens.

Mesmo que isso aconteça, não é desprezível que Bolsonaro tenha mais uma vez dado mostras de que a saúde dos brasileiros está bem atrás de suas preocupações politiqueiras de derrotar o adversário Doria. Nem sequer disfarça a torcida para que os testes a vacina sejam malsucedidos.

Se isso não é um crime de um presidente contra seu povo, difícil saber o que será.