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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Enquanto ataca o Supremo, Bolsonaro faz de conta que é a vítima

Jair Bolsonaro com olhos estalados - Ansa
Jair Bolsonaro com olhos estalados Imagem: Ansa
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

12/04/2021 13h02

Os jogadores que seguem a nefasta cartilha da malandragem no futebol sabem muito bem como agir para tentar enganar o juiz quando fazem uma falta mais violenta. Logo depois de desferir a bordoada no adversário, caem no gramado junto com a vítima, para simular alguma dor. O objetivo é que o apitador se confunda e tome o agressor como agredido.

Muitas vezes dá certo.

Esse expediente não é usado somente no esporte. Na política, se tornou frequente nos últimos dois anos. O presidente Jair Bolsonaro é um dos principais praticantes da estratégia e a está colocando em prática agora, contra os ministros do Supremo Tribunal Federal.

Desde o primeiro momento que pisou no Palácio do Planalto (até antes, quando candidato) Bolsonaro ataca e apoia todo tipo de baixarias contra o STF e o Congresso - como as minúsculas manifestações antidemocráticas, que ontem voltaram a acontecer.

Basta que um ministro do Supremo decida contra seus interesses ou que os parlamentares votem contra seus projetos para denunciar que estão invadindo as atribuições do Executivo.

É o que se repete agora. Acionado para opinar se o presidente do Senado poderia barrar a Comissão Parlamentar de Inquérito que pretende investigar o desempenho do governo federal no combate à pandemia, apoiada por mais de 1/3 dos integrantes da Casa, Barroso seguiu a Constituição. Decidiu pela instalação da CPI.

Diante disso, o presidente sustentou para os seguidores a versão de que o STF estaria criando conflito para inviabilizar seu governo.

Na verdade, cabe ao Supremo resolver impasses provocados tanto pelo Executivo quanto pelo Legislativo (além das instâncias inferiores do Judiciário). É esse o papel da Corte.

Mais uma vez, Bolsonaro atuou como zagueiro que distribui caneladas a torto a direito, mas cai no chão ao lado da vítima, para tentar ludibriar o juiz.

O imbroglio ganhou ontem novo ingrediente, com a divulgação pelo senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) de uma conversa por celular na qual o presidente pede que o objeto da CPI não se limite somente ao governo federal, mas se estenda também a governadores e prefeitos.

Vai além: Bolsonaro pressiona Kajuru a entrar com pedido de impeachment contra ministros do Supremo.

Se a divulgação do áudio foi mesmo uma jogada ensaiada entre o senador e o presidente, como interpretam alguns políticos e integrantes do STF, a bola passou bem longe do gol. Na verdade, se converteu em gol contra.

A conversa é a prova de que o presidente da República acerta com um parlamentar um plano de ataque ao Supremo para tentar impedir que os ministros façam o trabalho para o qual foram nomeados. Tudo porque a instalação da CPI não agrada a Bolsonaro..

Isso, sim, é interferência de um Poder sobre outro.

A julgar pela reação dos congressistas, dessa vez a estratégia do zagueiro botinudo foi descoberta. Na sequência, saberemos se finalmente receberá alguma punição por sua conduta em campo - um cartão amarelo de advertência ou algo mais rigoroso: o cartão vermelho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL