PUBLICIDADE
Topo

Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Intérprete de 'hino' de atos bolsonaristas reclama: 'Não quero ser usado'

Netinho, baterista da banda Os Incríveis - Divulgação
Netinho, baterista da banda Os Incríveis Imagem: Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

01/05/2021 04h00

Grupos bolsonaristas de WhatsApp receberam nos últimos dias vídeos de convocação às manifestações em apoio ao presidente da República, que acontecem hoje em várias cidades. A maioria das mensagens teve como trilha sonora a música "Eu te amo, meu Brasil", gravada em 1970 pelo conjunto Os Incríveis. Na época do lançamento, o sucesso foi usado pela ditadura militar em eventos oficiais e propagandas do governo. Agora, embala os simpatizantes de Jair Bolsonaro.

Integrante da banda e participante da gravação da música, 50 anos atrás, o baterista Luiz Franco Thomaz, o Netinho, explica que a utilização nos atos bolsonaristas acontece à revelia. "Não quero ser usado nessa guerra", diz ele. "Preferia não estar novamente vinculado a um movimento político".

Netinho afirma que não é apoiador da esquerda e reza para que Deus ilumine os governantes, mas não gosta de ser vinculado a nenhuma corrente partidária.

"Vão usar a gente como instrumento? Minha participação nesse mundo é com música", define o baterista. "Quem mais está sofrendo nesse momento e quem mais está ajudando as pessoas são os músicos. E os caras ainda por cima estão usando a gente?".

"Eu te amo, meu Brasil" é de autoria de Dom, integrante da dupla Dom & Ravel, que também fez muito sucesso nos anos 1970. A letra caiu como uma luva para o governo da ditadura, por seu tom ufanista. O refrão diz: "Eu te amo, meu Brasil, eu te amo / Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil / Eu te amo, meu Brasil, eu te amo / Ninguém segura a juventude do Brasil". O estilo de marcha escolar foi facilmente associado à caserna.

Bolsonaristas fardados marcharam em março ao som de "Eu te amo, meu Brasil" - Reprodução de vídeo - Reprodução de vídeo
Bolsonaristas fardados marcharam em março ao som de "Eu te amo, meu Brasil"
Imagem: Reprodução de vídeo

O primeiro registro da canção foi dos Incríveis e é essa a versão preferida dos bolsonaristas - nas mensagens de convocação, os organizadores das carreatas citam a banda como intérprete do fundo musical a ser usado nas carreatas.

Em atos de apoio ao presidente Bolsonaro a música também é tocada no momento em que os participantes simulam uma parada de estilo militar.

Aos 75 anos, Netinho é o último remanescente da formação original dos Incríveis - todos os outros integrantes faleceram. Segundo ele, a música foi gravada por imposição da gravadora RCA Victor para preencher um espaço no disco. Virou hit nacional. "Vendeu um milhão de cópias, quando um disco normal não passava de 150 mil, 200 mil cópias", lembra ele.

Enquanto a composição tocava repetidamente nas rádios e TVs, a banda acabou. Por anos a fio, Netinho teve que responder nas entrevistas sobre a utilização da obra pelo regime autoritário. Agora, começa a ser cobrado pela associação a Bolsonaro.

"É difícil raciocinar em um momento que nos colocam no meio desse movimento", desabafa o artista. "Fico preocupado mesmo é em perder os amigos".