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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Castigo de Lacerda lembra a Arthur Lira que golpistas não são confiáveis

Arthur Lira e Carlos Lacerda, governador da antiga Guanabara - Reprodução
Arthur Lira e Carlos Lacerda, governador da antiga Guanabara Imagem: Reprodução
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

19/08/2021 20h41

Governador do antigo estado da Guanabara de 1960 a 1965, Carlos Lacerda era conhecido por ser ousado e sempre foi considerado como raposa política. Confiando em sua esperteza, fez uma jogada atrevida em 1964: colocou toda influência e oratória a serviço do golpe militar.

Pelos planos de Lacerda, depois que os fardados arrancassem João Goulart da Presidência, ele conseguiria se lançar como candidato ao Palácio do Planalto. Deu errado. A prorrogação do regime militar foi anunciada em 1966 pelo presidente Castello Branco. Lacerda, então, ficou decepcionado e se tornou opositor da ditadura.

Acabou cassado pelos militares em dezembro de 1968. Foi preso e levado para uma cela do Regimento de Cavalaria da Polícia Militar.

O destino de Carlos Lacerda não é muito diferente de outros que apoiaram ou se associaram a golpistas em outros episódios da história. Quem mostra disposição de atropelar as leis e a Constituição para tomar o poder, normalmente não se preocupa em honrar compromissos firmados na escalada do golpe.

Seria recomendável que o presidente da Câmara, o deputado Arthur Lira (PP-AL), levasse isso em conta nesse momento em que é o principal garantidor do apoio do Centrão ao presidente Jair Boslonaro.

É certo que Lira não é Carlos Lacerda. Teve o cuidado que o antigo governador da Guanabara não teve, de anunciar ao público que não participará de aventuras antidemocráticas.

Apesar disso, Bolsonaro só tem desenvoltura para continuar com sua campanha golpista contra as instituições porque sabe que pode contar com a retaguarda do Centrão.

Antes que o plenário da Câmara decidisse o destino da PEC do voto impresso, Lira disse que aquele assunto já tinha ido longe demais. Com a decisão dos deputados, acalentava a esperança de que Bolsonaro abandonasse o principal refrão que vinha usando para questionar o processo eleitoral brasileiro.

Não foi o que aconteceu. O presidente da República prepara o pedido de impeachment do ministro Luir Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, e do ministro Alexandre de Moraes. Vai continuar apostando no tensionamento.

Lira continua ao lado de Bolsonaro, em nome das emendas e das benesses com que o Centrão foi fartamente agraciado. Enquanto isso, o ocupante do Palácio do Planalto atiça atos antidemocráticos, xinga ministros dos tribunais superiores, ameaça a realização de eleições, ataca a imprensa.

O presidente da Câmara é corresponsável, portanto, por toda a bagunça que o presidente causa atualmente ou que vier a causar.

Do alto de sua larga experiência política, Lira deve achar que tem tudo sob controle e, como aconteceu outras vezes com o Centrão, vai continuar por cima da carne seca, aconteça o que acontecer.

O exemplo histórico de Carlos Lacerda prova, no entanto, que mesmo os políticos espertos podem se dar muito mal quando os golpistas triunfam.

Recomenda-se que abra bem o olho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL