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Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Pesquisadores paulistas denunciam kit covid em revista científica britânica

Cloroquina - Reuters
Cloroquina Imagem: Reuters
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

13/10/2021 11h58

A prestigiosa revista científica britânica The Lancet publicou artigo de dois pesquisadores paulistas denunciando o uso no Brasil de medicamentos comprovadamente ineficazes contra a covid-19, com incentivo do governo e sem que o Conselho Federal de Medicina (CFM) tome qualquer providência para impedir.

Os autores são Leonardo Furlan, pós-doutor em Neurofisiologia, e Bruno Caramelli, cardiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP. Caramelli também é o responsável por uma representação junto ao Ministério Público Federal que pede a abertura de inquérito para apurar a atuação do CFM durante o período em que o Ministério da Saúde incentivou o 'tratamento precoce' contra o coronavírus.

O artigo intitulado "A lamentável história do 'Kit Covid' e do 'Tratamento Precoce da Covid-19' no Brasil" foi publicado na Lancet em 5 de outubro. Os dois pesquisadores começam citando as especulações feitas pelo presidente americano Donald Trump no início da pandemia sobre a suposta eficácia da cloroquina.

"Essa 'infusão da política na ciência' provavelmente desencadeou o uso off-label generalizado de vários medicamentos contra a covid-19 em muitos países, inclusive nos EUA e no Brasil, apesar de a comunidade científica internacional desaconselhar esta prática", diz o texto.

A seguir, acusam o presidente Jair Bolsonaro, autoridades públicas e médicos de fazerem "a promoção flagrante de drogas não comprovadas" contra a doença, como hidroxicloroquina, ivermectina e nitazoxanida, e praticarem "sabotagem de intervenções consagradas, como distanciamento social, uso de máscara e vacinação, por outro lado".

"Em uma população politicamente inflamada e compreensivelmente assustada, na qual muitas pessoas têm dificuldades para fazer escolhas informadas em saúde, isso pode ter consequências catastróficas", escreveram Furlan e Caramelli.

Eles relatam que o kit covid surgiu no Brasil no começo da pandemia e foi promovido pelo grupo Médicos pela Vida, "uma associação médica criada para disseminar o 'tratamento precoce'". Contam a reunião no Palácio do Planalto em que uma carta promovendo essas terapias ineficazes foi entregue a Bolsonaro, "que a recebeu com muita gratidão e entusiasmo".

"Através de cursos online, aparições na mídia convencional, um apoio explícito do governo federal e uma forte presença nas mídias sociais, o movimento 'Médicos pela Vida' tem influenciado muitas pessoas no país, não só profissionais da saúde, mas também a população leiga", continua o artigo. "(...) Com relação à ivermectina, têm havido relatos de diferentes países, inclusive do Brasil e dos EUA, de pessoas sendo hospitalizadas após se automedicarem e se intoxicarem com a droga".

Os autores defendem que o Conselho Federal de Medicina deveria proibir oficialmente o tratamento precoce com as drogas do chamado kit covid.

Para Leonardo Furlan, a importância da publicação do artigo na Lancet é dar visibilidade internacional à questão. "Tentamos chamar a atenção do mundo, especialmente da comunidade médico-científica, para um problema que, conforme relatado no texto, apesar de estar ocorrendo também em outros países, no Brasil tomou proporções absurdas", explicou ele à coluna.

"Denúncias e relatos desse tipo podem levar direta ou indiretamente a alguma forma de pressão internacional sobre o Brasil em relação a essa questão do manejo equivocado da Covid-19, que não só coloca a própria população brasileira em risco, como também transforma o país em uma ameaça à saúde pública global", acredita Furlan.