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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não é 13 de maio o marco da Abolição, mas o dia seguinte

Abolição e o dia 14 - Arte: Camila Pizzolotto
Abolição e o dia 14 Imagem: Arte: Camila Pizzolotto
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

13/05/2022 04h00

Depois de mergulhar a pena no tinteiro e levá-la ao papel para assinar a Lei Áurea, a princesa Isabel entrou para a história como a redentora dos escravos. Aquele ato, consumado há 134 anos, marcou no calendário a data que por muito tempo simbolizou a liberdade dos negros brasileiros. Livros escolares, imprensa e discursos fixaram na cabeça dos brasileiros esse mítico 13 de maio.

O genial Lima Barreto relata no conto "Maio" a lembrança daquele dia. Seu pai o levou ao Largo do Paço, no Centro do Rio, para se juntar à multidão que acompanhou a assinatura de Isabel. "Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total".

Das intenções descritas nas leis à vida de verdade, como se sabe, há sempre uma grande distância. Não foi, portanto, aquele momento histórico que determinou a realidade das pessoas que finalmente se livraram do cativeiro. O dia seguinte, esse sim, indicou como viveriam as próximas gerações de negros livres.

Deixaram de ser escravos, mas não foram integrados à sociedade. Não tinham os mesmos direitos, não tinham os mesmos empregos, não tinham a mesma educação, não tinham a mesma renda.

Não têm até hoje.

Como traduziram na música "14 de Maio" os compositores baianos Jorge Portugal e Lazzo Matumbi: "No dia 14 de maio, eu saí por aí / Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir / Levando a senzala na alma, eu subi a favela / Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci".

Segundo a definição do antropólogo Hélio Santos, esse é "o dia mais longo da história do Brasil". O descaso a que foi submetida essa importante parcela da população brasileira desde então determinou a sociedade racista que somos hoje.

A consciência negra, que tem crescido muito nos últimos tempos, buscou nova data para marcar a luta por igualdade: o 20 de novembro, quando teria morrido Zumbi dos Palmares. Mas ainda falta muito.

Não importa a cor da sua pele, a marginalização forçada desde o dia 14 de maio de 1888 é algo a ser combatido com prioridade.

Não há nada mais urgente em um país com índices tão vergonhosos de exclusão do povo preto e comandado por um presidente racista, que não vê problema algum em perguntar a um homem negro qual o seu peso em arrobas,