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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Omissão faz deputados do Rio cúmplices de gastos secretos de Cláudio Castro

Governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro (PL) - Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo
Governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro (PL) Imagem: Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

04/08/2022 16h07

Apesar do pouco tempo à frente do governo do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL) conseguiu manter a enorme tradição do Palácio Guanabara de abrigar práticas não recomendáveis. O atual chefe do Executivo fluminense assumiu oficialmente só em abril de 2021, depois que Wilson Witzel foi abatido pelo impeachment.

Mostrou-se ágil ao criar um esquema em que 27 mil apadrinhados e aliados políticos recebem salários sem que seus nomes sejam publicados em Diário Oficial ou apareçam em documentos disponíveis para consulta.

A gigantesca maracutaia só foi trazida à luz do sol pelo trabalho dos jornalistas Ruben Berta e Igor Mello, do UOL. Nos sete primeiros meses deste ano, esse batalhão de fantasmas registrados na Fundação Ceperj (Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio) sacou R$ 226 milhões na boca do caixa, hábito comum nos esquemas de rachadinha descobertos no Rio.

Apesar do tamanho da bolada retirada ilegalmente dos cofres públicos, os deputados estaduais que deveriam fiscalizar o Poder Executivo agem como se nada estivesse acontecendo, a começar pelo presidente da Assembleia Legislativa, o petista André Ceciliano.

As exceções são Martha Rocha (PDT), Renata Souza (PSOL), Flavio Serafini (PSOL) e Eliomar Coelho (PSB), que fizeram representação ao Ministério Público para que o escândalo seja investigado.

Há, inclusive, parlamentar apontado como um dos operadores do esquema que se tornou líder do governo na Alerj durante a publicação da série de reportagens. Trata-se de Rodrigo Bacellar (PL), que estaria ligado aos projetos Esporte Presente e Casa do Trabalhador, onde são empregados parte desses fantasmas. Outros deputados governistas faturam politicamente em cima da boquinha.

Isso explica em parte a omissão da Assembleia Legislativa nesse caso escabroso, mas não justifica nada. A Casa torna-se, assim, cúmplice dessa barbaridade do governo Castro.

O governador, aliás, ainda não veio a público para esboçar explicações sobre as denúncias. A única providência até agora foi a suspensão por um mês do projeto Casa do Trabalhador, que tem 9.000 cargos secretos, para realização de uma auditoria. Ou seja, o governo investigando a si mesmo.

Em outro front do uso da Ceperj para barganha política em ano eleitoral, está Patrique Welber, secretário estadual de Trabalho e Renda e presidente estadual do Podemos.

O governo do RJ padronizou uma tabela para sistematizar as indicações de cabos eleitorais de candidatos a deputado estadual e federal nos cargos secretos. Três fontes que negociaram pré-candidaturas pelo Podemos confirmaram ao UOL ter recebido a proposta de indicação de cabos eleitorais de Welber.

O governo diz desconhecer indicações políticas nos programas. Enquanto isso, o secretário de Castro se mantém à frente da pasta, assim como o presidente da Ceperj, Gabriel Lopes, continua intacto no cargo.

Até agora, o grande prejuízo para Castro é político. Além do desgaste que já vem sofrendo pela divulgação da maracutaia, o tema certamente deverá ser explorado pelos adversários na corrida eleitoral —a começar pelo debate na TV previsto para a Band no domingo (7).

Outro dano pode ser creditado à decisão da Justiça de suspender pagamentos na boca do caixa e novas contratações de temporários, o que pode desagradar aliados políticos do governador.

Ainda é pouco.

À medida que as investigações avancem, espera-se que nomes e ilegalidades sejam detalhados e que sejam punidos todos os responsáveis. Seja por ação ou omissão.