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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Câmara tem que decidir se é espaço para molecagens ou política

Nikolas Ferreira faz discurso transfóbico na Câmara dos Deputados no Dia Internacional da Mulher - TV Câmara
Nikolas Ferreira faz discurso transfóbico na Câmara dos Deputados no Dia Internacional da Mulher Imagem: TV Câmara

Colunista do UOL

09/03/2023 04h00

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A partir da legislatura iniciada em 2019, a política brasileira começou um processo de profunda transformação. Muitos deputados e senadores conhecidos por práticas tradicionais foram substituídos nas urnas por figuras que usam as redes sociais para conquistar votos. Como consequência, de um momento para outro, Câmara e Senado foram invadidos por divulgadores de fake news, propagadores de discurso de ódio e personagens performáticos sem qualquer preocupação com os problemas verdadeiros do país.

O objetivo desse novo tipo de parlamentar é destruir a reputação dos adversários e aumentar o número de seguidores.

Seguindo a máxima de que nada é tão ruim que não possa piorar, a legislatura que começa agora manteve boa parte das figuras do mandato anterior e ganhou reforço de espécimes ainda mais bizarros.

Um deles teve ontem participação abominável na tribuna. Nikolas Ferreira (PL-MG), o deputado campeão de votos do Brasil, lançou mão de uma peruca para cometer o crime de transfobia, em pleno Dia Internacional da Mulher, à vista de todos.

A deputada Tábata Amaral (PSB-SP) deu a ele o tratamento devido: não passa de um moleque.

No entanto, não é o único.

Nos debates e embates verificados nos primeiros dias de atuação dos novos deputados e dos deputados reeleitos, a Câmara baixou ainda mais o nível, que já estava próximo do chão. Xingamentos, provocações, ofensas, piadas de mau gosto e mentiras encobrem a tentativa de alguns de apresentar propostas úteis para a população.

A inconsequência desses bolsonaristas radicais está longe de ser inócua, como se viu na depredação às sedes dos poderes da República, no dia 8 de janeiro. O episódio mais triste da história recente do país foi fermentado por esse tipo de pseudopolítico que faz o possível para sabotar o Legislativo a que pertencem. Querem implodir por dentro a democracia.

Na primeira vez não conseguiram. Mas como será se acontecer uma próxima?

É preciso, portanto, tratar com mais rigor esses baderneiros com mandato, mesmo que tenham sido ungidos por muitos votos. Em nenhum país do mundo votação expressiva confere a um político o direito de fazer o que quiser - inclusive infringir as leis. Pelo contrário, o raciocínio deveria ser: quanto mais votos, mais responsabilidade.

Se Arthur Lira, presidente da Casa, quer cumprir a promessa de coibir as manifestações de desrespeito, o caso de Nikolas Ferreira é uma excelente oportunidade. Inclusive porque ele cometeu ontem um crime, que o Ministério Público Federal vai examinar.

Desde o início da legislatura, os deputados sérios e a sociedade civil devem pressionar para que a Câmara volte a ser um espaço de exercício da política, pelo bem do Brasil.

Definitivamente, aquele não é um lugar para moleques.