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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Motociata consolida o status de seita do bolsonarismo

09.mai.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participa de um passeio de moto com apoiadores para celebrar o Dia das Mães, em Brasília - REUTERS/Ueslei Marcelino
09.mai.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participa de um passeio de moto com apoiadores para celebrar o Dia das Mães, em Brasília Imagem: REUTERS/Ueslei Marcelino
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

12/06/2021 10h28

* Cesar Calejon

Em pouco mais de dois anos, a ideologia extremista do bolsonarismo tornou-se uma espécie de seita suicida que pretende conduzir os seus seguidores, bem como o restante do Brasil, consequentemente, para os fins trágicos que encerram tais propostas, invariavelmente.

Ao observamos, à luz da história, alguns dos principais "líderes" das seitas mais letais de todos os tempos, figuras como Charles Manson, Bhagwan "Osho" Shree Rajneesh, Jim Jones, Dominic Kataribabo e David Koresh possuem três coisas em comum com o atual presidente brasileiro: (1) a total falta de contato com a realidade para basear as suas ações e "liderança", (2) uma espécie de "aura messiânica" (com caráter religioso) que impedia os seus sectos de os questionarem com base na razão e (3) um ímpeto assassino que conduziu os adeptos das suas filosofias à morte na tentativa de combater um grande inimigo (ou ameaça) para fazer a manutenção dos seus poderes ou alcançar os seus objetivos insanos.

Por exemplo, Charles Manson era obcecado pela música Helter Skelter, dos Beatles, e passou a usar a composição para descrever a necessidade de se preparar para uma guerra racial, assim como Olavo de Carvalho, ideólogo central do bolsonarismo, vem avançando a sua proposta "antiglobalista" para travar uma guerra contra o "marxismo cultural" e o "comunismo".

Rajneesh contaminou, deliberadamente, 751 dos seus seguidores com salmonela para sabotar as eleições locais e tentar angariar o seu poder político. Parece familiar? Há um ótimo documentário sobre o tema.

Jim Jones se autoproclamava como o "messias" que seria capaz de salvar os seus seguidores da iminente catástrofe nuclear que se aproximava pelas mãos dos comunistas, sempre eles. Em novembro de 1978, Jones foi o responsável pela contaminação e morte de mais de novecentas pessoas no rancho que era intitulado Jonestown.

Líder de um movimento que foi denominado Movimento Pela Restauração dos Dez Mandamentos de Deus, em Uganda, na década de 1980, Dominic Kataribabo preconizava que os seus seguidores deveriam seguir os dez mandamentos rigidamente para não perecer durante o apocalipse, que segundo ele aconteceria no último dia do ano de 1999.

Em meio ao caos que ajudara a criar, Kataribabo demandava que os seus adeptos oferecessem seus bens à seita, exatamente como fizeram algumas agremiações religiosas durante a pandemia no Brasil em 2021. Quando o mundo seguiu existindo a partir do primeiro dia do ano 2000 e os fiéis começaram a questioná-lo, ele ateou fogo à igreja durante um culto e incinerou mais de quinhentas pessoas imediatamente. Pelo menos outros duzentos corpos foram encontrados enterrados no jardim de sua casa.

Finalmente, David Koresh convenceu os seus seguidores a se armarem em nome de Jesus Cristo para enfrentar o dia do juízo final. Bolsonaro vem fazendo o mesmo - estimulando enfaticamente o armamento da população brasileira e convocando "motociatas" como as de hoje em São Paulo, que foi intitulada "Acelera para Cristo" -, mas para ser capaz de contestar a derrota eleitoral que se desenha para 2022 a fim de evitar uma possível prisão pelo genocídio cometido entre os anos de 2020 e 2021.

No Texas, em 1993, Koresh foi o pivô de uma luta armada que durou semanas e matou quatro agentes federais e mais de oitenta membros da seita, resumidamente e em última instância.

Nesse sentido, Bolsonaro adotou absolutamente todos os comportamentos demonstrados pelas figuras citadas nesse artigo: estimulou uma guerra contra o "comunismo", contra a China etc., promoveu a contaminação da população brasileira - sabotando o plano vacinal e difundindo a falsa tese da "imunidade de rebanho" - ao custo de milhares de vidas para promover a retomada econômica antes do próximo pleito presidencial, desacreditou a ciência em nome de soluções messiânicas e catalisou o armamento da população brasileira de forma sem precedentes.

A única diferença, nessa ocasião, é que o presidente brasileiro não lida somente com um grupo restrito de algumas centenas de seguidores, mas vem adotando esse modus operandi com a maior população nacional de toda a América do Sul. Segundo o próprio presidente, o ato deste sábado (12), conduzido na maior cidade do país durante a maior crise sanitária dos últimos cem anos, pretende reunir pelo menos cem mil motos.

Dessa forma, a eleição de 2022, caso Bolsonaro não sofra o impeachment por conta dos claros crimes que cometeu e estão agora sendo eloquentemente ilustrados pela CPI, será a última fronteira para deter o secto de lunáticos que pretende tomar conta do Brasil.

* Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (EACH-USP). É, também, autor do livro "A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI" (Lura Editorial).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL