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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rachadinha e Covaxin farão colar pecha de 'corrupto' em Bolsonaro

Bolsonaro com olhos meio arregalados - Alan Santos/PR
Bolsonaro com olhos meio arregalados Imagem: Alan Santos/PR
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

05/07/2021 20h04

* Warley Alves Gomes

A política brasileira atual parece seguir um roteiro que mistura filme noir, thriller de conspiração e ficção científica. Se já pesava sobre Jair Bolsonaro a alcunha de "genocida", digna dos ditadores que ele tanto admira, a de "corrupto" ainda estava para ser mais bem costurada. Nesse sentido, a implicação direta do presidente no escândalo da rachadinha, como revelou o UOL, somada à denúncia de corrupção na compra da vacina Covaxin, caminha para dinamitar o que resta da imagem pública de Bolsonaro.

A relação do clã Bolsonaro com a prática da "rachadinha"— leia-se "peculato" ou "crime contra a administração pública" — já assombrava o presidente, mas até então estava limitada às relações entre Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz, ex-assessor do filho do presidente, suposto responsável por cobrar e administrar o esquema de repasse indevido de verba.

A reportagem desta segunda (5) altera profundamente o quadro, pois coloca o atual presidente no centro do esquema: Jair Bolsonaro, em troca de mensagens entre Márcia Aguiar e Nathália Queiroz, respectivamente mulher e filha de Fabrício Queiroz, era chamado de "01".

Esse áudio é particularmente revelador, pois, datado de 24 de outubro de 2019, portanto enquanto Queiroz se encontrava escondido na casa de Frederick Wassef — advogado da família Bolsonaro —, o conteúdo revela Márcia chamando o ex-assessor de "burro", já que continuava fazendo as articulações.

É preciso se atentar para um detalhe: se o esquema começou ainda quando Bolsonaro era parlamentar, o áudio indica a permanência da prática pela família, agora com Jair Bolsonaro na presidência. Embora não seja uma surpresa, pois, como diz o ditado "velhos hábitos nunca morrem", a denúncia agrava seriamente a situação do presidente, pois passa de suposição para indício.

Ao que tudo indica, Queiroz não era a única pessoa encarregada de recolher os salários, cabendo essa tarefa também a um coronel da reserva do Exército, ex-colega do presidente na AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras) nos anos 1970.

Este pode ser um fato decisivo na vida pública de Jair Bolsonaro e, no mínimo, mais um agravante para a situação já complicada do presidente. Se tudo for confirmado, estamos diante de um esquema de corrupção no qual o presidente e sua família se comportam como uma verdadeira máfia, elemento que sempre incrementa um bom roteiro de filme noir.

É preciso compreender essas revelações em conjunto com o contexto atual. Bolsonaro sabe que o final de seu mandato e uma possível reeleição não serão tarefas fáceis. Com as recentes pesquisas apontando a vitória de Lula, provavelmente seu principal adversário nas eleições de 2022, e seu governo em franco desgaste, tudo que o presidente menos precisava era de mais um escândalo na conta.

Ao contrário do que aparenta, Bolsonaro e sua equipe têm feeling político e o presidente já percebeu que sua situação começou a se complicar. Os áudios divulgados tendem a contribuir consideravelmente para associar sua imagem à corrupção. Importa menos que essas práticas sejam comprovadas: em matéria de política, muitas vezes a sensação vale mais que os fatos.

Ao passo que as denúncias e suspeitas recaem sobre o presidente, não lhe resta alternativa a não ser aumentar sua dependência em relação ao chamado "Centrão". Na história da Nova República, esse sempre foi um equilíbrio difícil. É fato que alguns veem em Arthur Lira (PP-AL), chefe da Câmara, um aliado do presidente. E assim tem sido até o momento. Mas é preciso se atentar para dois outros elementos.

O primeiro deles é que esse apoio não é incondicional. Lira é um aliado estratégico e não um "bolsonarista raiz", como são alcunhados os fiéis apoiadores de Bolsonaro. Em termos de práticas políticas, isso significa que o deputado dança conforme a música e não que seja sambista de uma nota só.

Ou seja, acatar ou não acatar um pedido de impeachment depende mais do termômetro político brasileiro, das possibilidades deste ser aprovado e de quanto se ganha ou se perde, politicamente, com essa jogada. Impeachment não é, nem nunca foi, questão de moral nesse país. A política brasileira segue os ensinamentos de Maquiavel à risca e as boas intenções só prosperam com boa dosagem de negociata.

E o Príncipe também, se quisermos manter a referência ao pensador florentino. E é aqui que projetamos o segundo elemento: Bolsonaro, quem se dizia avesso à política do "toma lá dá cá", já se tornou adepto fervoroso da prática e sabe que provavelmente terá de recorrer a ela mais uma vez. A lógica do Centrão é parasitária: ele faz do governo um hospedeiro e pede cada vez mais conforme a situação se complica. E nas últimas semanas ela tem se complicado cada vez mais. Cargos, incentivos, o que quer que agrade ao bloco, o presidente terá de ceder. E, enquanto cede, fica mais visível que trai seus eleitores.

Talvez a reportagem do UOL e os áudios que associam Jair Bolsonaro à liderança de um esquema "familiar" de "rachadinhas" não sejam a gota d'água para colocar um processo de impeachment em votação. Mas são elementos que contribuem para aumentar a insatisfação popular em torno do governo.

Aos poucos, vai ficando cada vez mais difícil apoiá-lo e ter sua imagem associada ao presidente pode custar muito caro. O Centrão fará seus cálculos e colocará tudo na balança. Alguns serão cuidadosos o suficiente para apoiar o governo de forma discreta; para Arthur Lira a situação é um pouco mais delicada, pois ele é a porta de entrada — ou a muralha que barra — do pedido de impeachment. Ainda é difícil saber se ele ganha ou perde com tudo isso.

Bolsonaro perde. E perde cada vez mais. Já vinha sendo chamado de "genocida", agora também é chamado de corrupto. Pelo que anunciam as próximas semanas, o termo deve colar ainda mais na epiderme do presidente.

* Warley Alves Gomes é mestre em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente leciona no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais - Campus Avançado Arcos. Também se dedica à escrita literária, tendo estreado com a publicação do romance O Vosso Reino, uma distopia realista que remete ao Brasil contemporâneo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL