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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Manifestação bolsonarista buscou perverter os signos da democracia

1.mai.2022 - Manifestação reúne apoiadores do deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), no bairro de Icaraí, em Niterói (RJ) - Thiago Camara/Colaboração para o UOL
1.mai.2022 - Manifestação reúne apoiadores do deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), no bairro de Icaraí, em Niterói (RJ) Imagem: Thiago Camara/Colaboração para o UOL
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

02/05/2022 17h05

* Thatiane Moreira

No último 1º de Maio, Dia do Trabalho, data tradicionalmente ocupada pela esquerda em manifestações em defesa dos direitos trabalhistas, os bolsonaristas tomaram as ruas de capitais e cidades brasileiras. O que os apoiadores de Jair Bolsonaro reivindicavam? Para entender o mote das manifestações precisamos voltar para o 20 de abril, data em que o deputado Daniel Silveira (PTB-RJ) foi julgado no STF, sem perder de vista as ressonâncias do último 7 de Setembro.

Após 20 de abril, e principalmente, depois do perdão concedido a Silveira pelo presidente da República, os chamados para as manifestações de 1º de Maio começaram a ser disseminados nas redes digitais bolsonaristas, ainda que timidamente. As mensagens vinculavam o tema da liberdade com o caso do deputado federal. O que se via nas chamadas para a ação eram frases como "pela liberdade de Daniel Silveira e pela defesa da Constituição", "em defesa da liberdade e das pautas conservadoras".

Embora aparecesse a ideia de que a comemoração do Dia do Trabalho não poderia ser monopólio de sindicalistas, a figura do trabalhador não apareceu como tema central, dando espaço ao repetido mantra da liberdade ("por um Brasil onde o povo é livre para se manifestar e se expressar"), e à figura de Daniel Silveira ("Somos todos Daniel"), tendo por pano de fundo a crítica ao STF, que apareceu apenas de modo implícito nas chamadas para as manifestações, e se explicitou nas faixas e placas presentes nas ruas.

Mesmo que Silveira tenha discursado em um carro de som na presença de um sósia do "viking" que se tornou símbolo da invasão ao Capitólio, a tentativa de não enquadrar os atos de rua como uma afronta ao STF, ou como um movimento antidemocrático, deu o tom dos discursos, como o da deputada Carla Zambelli (PL-SP), assim como em falas de apoiadores de Bolsonaro dentro e fora das redes digitais, de modo que a defesa do impeachment de ministros do Supremo aparecesse como legal e saudável para a democracia.

Para os organizadores dos atos e para os coordenadores da campanha de Jair Bolsonaro, dois pontos apareceram como de fundamental importância, tanto nas redes digitais quanto nas falas de apoiadores durante as manifestações: criar a impressão de legalidade, no sentido de que seus opositores é que "jogam fora das quatro linhas" — por isso o famoso "eu autorizo" ficou abafado — e demonstrar a popularidade do presidente brasileiro. Circulou nos grupos bolsonaristas a ideia de que ocupar as ruas em uma data que é tradicionalmente da esquerda mostraria a força de Bolsonaro, a qual as pesquisas eleitorais supostamente estariam camuflando. Seria assim uma forma de provocação e de disputa de forças com os opositores.

Além da clara vinculação com o caso Silveira, as ações de 1º de Maio ressoaram os acontecimentos do último 7 de Setembro e de seus desmembramentos. Desde a carta do pós-7 de Setembro, dentro dos grupos digitais bolsonaristas, duas ideias principais circularam: de um lado, aqueles que se mostravam decepcionados com a posição do presidente brasileiro, por ele ter demonstrado fraqueza e medo perante o STF. O entendimento era de que o povo havia dado ao presidente a sua autorização (o "eu autorizo" gritado a plenos pulmões nas manifestações e repetido incansavelmente nas redes, referente ao desejo de fechamento do STF ) e ele nada havia feito.

De outro lado, prevalecia a retórica do tipo "recuamos para pegar impulso", que tentava mostrar que na verdade a carta de desculpa do presidente representou um recuo estratégico e que ele teria uma "carta na manga", a qual seria utilizada no momento oportuno. Para este grupo, o presidente é um militar e, portanto, um excelente estrategista, que sabe o que está fazendo e merece confiança.

Os mesmos dois grupos — que podem ser divididos entre decepcionados/desconfiados e confiantes/fiéis — se expressaram nas redes digitais a respeito da posição do presidente brasileiro frente ao julgamento de Daniel Silveira e sobre o voto do ministro André Mendonça referente ao caso. Para os mais desconfiados, a posição de Bolsonaro frente a seus apoiadores, que supostamente eram "perseguidos injustamente" pelo STF, teria sido fraca demais. Para este grupo, o Capitão teria falhado em salvar seus "soldados", aqueles que compõem o exército que luta para salvar o Brasil de uma suposta ameaça progressista/esquerdista. Além do mais, o presidente não teria nem ao menos conseguido escolher um ministro do Supremo capaz de representar os interesses dos "patriotas", como se autointitulam os apoiadores de Bolsonaro.

O grupo dos confiantes, por sua vez, após o julgamento de Silveira pediam calma, já que seria melhor esperar o posicionamento oficial do presidente para entender melhor a estratégia em jogo. Esperavam aquela "carta na manga", anunciada desde o pedido de desculpas após o 7 de Setembro.

Poisa carta enfim chegou, e com ela as mensagens de "confie no seu presidente", "Bolsonaro sempre tem razão" passaram a ecoar nas redes digitais. Com o perdão a Daniel Silveira, do modo como foi concebido, Bolsonaro passou a imagem para os seus seguidores de um líder forte e corajoso, no sentido de um "macho alfa", tanto enquanto homem (a pessoa Jair Bolsonaro), quanto como representante do Executivo (frente aos dois outros poderes).

Uma imagem que circulou muito nas redes digitais bolsonaristas foi uma montagem em que aparecia Jair Bolsonaro carregando Daniel Silveira ferido nas costas, ambos com o uniforme do Exército e com a mensagem "até o último". Em muitos casos, dentre as mensagens e/ou comentários que acompanhavam a imagem citada, aparecia outra com os dizeres "Desistir é para os fracos, os fortes confiam em Deus".

A combinação destas duas imagens é emblemática para mostrar como se procurou enquadrar a figura do atual presidente brasileiro: um homem forte, corajoso, guerreiro (um soldado que não foge da batalha), que não deixa seus apoiadores para trás, custe o que custar, cristão e apoiado por Deus. Em suma, alguém que se pode confiar e que apoiará o seu povo frente aos inimigos materiais e ideológicos.

Junto com os memes e imagens de apoio ao atual presidente, perambulou a ideia (explícita ou implícita) de que um Poder Executivo mais forte seria saudável para a democracia, afinal ao contrário dos ministros do Supremo (denominados de "os iluminados"), e dos líderes da Câmara e do Senado (que nada fizeram para salvar o deputado Daniel Silveira), apenas o chefe do Executivo é que se mostrou disposto a lutar corajosamente pela liberdade.

Nesse sentido, é preocupante perceber que frente aos discursos críticos ao STF promovidos pelos apoiadores de Bolsonaro venha se construindo a percepção de que o Executivo deve ter mais poder para preservar a própria democracia, o que significa a naturalização de uma visão antidemocrática e que rompe com uma das bases fundamentais da democracia, o balanço entre os poderes.

Bolsonaro dará um golpe de Estado? É difícil precisar, assim como é errado dizer que todos os seus apoiadores são golpistas. O que podemos inferir dos fatos é que o atual governo deixará profundas rachaduras na já frágil democracia brasileira, lutemos para que ela ao menos persista.

* Thatiane Moreira é mestranda em Ciência Política pela Unicamp