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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ação contra Moraes é parte do roteiro golpista de Bolsonaro

Jair Bolsonaro em entrega de obras no Nordeste - Alan Santos/PR
Jair Bolsonaro em entrega de obras no Nordeste Imagem: Alan Santos/PR
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

18/05/2022 11h05

* Vinícius Rodrigues Vieira

A ação impetrada no STF pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) contra Alexandre de Moraes, ministro da corte, representa o último lance da queda do castelo de cartas da democracia, roteiro a que temos assistido desde, pelo menos, 1º de janeiro de 2019 sem qualquer reação à altura.

Na ação, Bolsonaro alega que Moraes abusou de sua autoridade, num claro lance para sugerir, não apenas à sua claque de fanáticos, mas ao Brasil todo, que ele seria o bastião das liberdades individuais contra um suposto autoritarismo do Supremo.

Em suma, o presidente constrói uma narrativa para dizer, num futuro próximo, que jogou até o limite dentro das quatro linhas da Constituição e que os verdadeiros usurpadores dela são os ministros do STF e demais "comunistas"— ou seja, todos aqueles que se opõem ao projeto de poder bolsonarista, defendendo princípios caros à democracia contemporânea, como a universalidade dos direitos humanos e a proteção das minorias perante uma cada vez mais próxima tirania da maioria.

Digo maioria literalmente, pois, ainda que apenas 21% dos brasileiros de definam de direita, os 55% que não se posicionam no espectro político parecem ser coniventes com a erosão do pacto democrático pós-ditadura. Nesse sentido, é sintomático que não se passe um dia sem que uma autoridade que ainda ousa fazer frente ao bolsonarismo fale que "não vai ter golpe". A negação de tal fato de forma reiterada é o maior indício de que um golpe já está em curso.

Como são pequenas as chances de que o processo contra Morares prospere na corte, Bolsonaro terá para seus seguidores uma prova de que as instituições conspiram contra ele e, portanto, contra a vontade popular manifestada em 2018, ano em que Bolsonaro tornou-se presidente após uma manobra para retirar Lula, então o líder das pesquisas, do pleito.

Como se livrar do bolsovírus que mata a democracia brasileira aos poucos? Infelizmente, dependemos dos mesmos que legitimaram a ascensão de Bolsonaro ao poder: a caserna. De fato, os compromissos reiterados de integrantes do alto comando militar de que aquele que vencer em outubro será empossado provam que somos hoje, no máximo, uma democracia tutelada pelos boinas-verdes, os quais também são críticos ao STF.

Desde 2019, portanto, Bolsonaro parece confiar numa ação golpista com seus milicianos armados e um eventual apoio das polícias militares. Não deve ser bem-sucedido ao fim dessa opereta, mas a tragédia deve custar sangue brasileiro. Somos todos Pilatos que lavam as mãos perante o povo-Cristo crucificado no altar do falso profeta que, travestido de libertário, destrói a democracia.

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em relações internacionais por Oxford e leciona na Faap e em cursos MBA da FGV.