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Constança Rezende


Atitudes opõem Bolsonaro a evangélicos; líderes não o consideram membro

Jair Bolsonaro é batizado nas águas do rio Jordão, em Israel - Reprodução
Jair Bolsonaro é batizado nas águas do rio Jordão, em Israel Imagem: Reprodução
Constança Rezende

É colunista do UOL em Brasília. Passou pelas redações do Estadão no Rio de Janeiro, O DIA e Jornal do Commercio.

Colunista do UOL

04/01/2020 04h00

No último dia 26, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deixou o Palácio do Alvorada, em comitiva oficial, para apostar na Mega-Sena da Virada. Porém, a foto do presidente sorrindo, na casa lotérica, repercutiu negativamente entre evangélicos mais conservadores - a Igreja não vê com bons olhos a mega-sena, por ser considerada um "jogo de azar".

Este foi mais um ato de Bolsonaro que contraria dogmas protestantes. Ele já se divorciou duas vezes, fala palavrões constantemente e apoia a política armamentista, criticada por muitos evangélicos. O slogan de sua campanha eleitoral também foi adotado pelo Grande Oriente do Brasil no Rio de Janeiro, uma das principais instituições maçônicas do país, vista com reservas pelos protestantes.

Bolsonaro é católico, mas flerta com a igreja evangélica e, consequentemente, com este eleitorado, muito disputado por políticos. Ele chegou a ser batizado no Rio Jordão, em Israel, pelo pastor Everaldo Dias Pereira, da Assembleia de Deus, em 2016. No ano passado, Bolsonaro compareceu a diversos cultos e tem garantido que indicará um ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) "terrivelmente evangélico".

Apesar disso, o presidente do Conselho Político da Convenção Geral das Assembleias de Deus (CGADB), Eliazar Cecon, disse ao UOL que Bolsonaro não é considerado um membro da Igreja. A Assembleia de Deus, vinculada à CGADB, tem 30 milhões de membros no Brasil, 104 mil pastores em 59 convenções afiliadas, em todos os estados brasileiros. A representação no Congresso Nacional é composta por 16 deputados e três senadores.

"Posso te garantir que ele, o presidente da República, não é membro de nenhuma das nossas convenções afiliadas. Desta forma, nós da Assembleia de Deus o vemos apenas como presidente da República, e não como membro da Igreja", disse.

Segundo o pastor, quando a atitude de um membro afronta a declaração de fé, ele é submetido a um processo disciplinar legal, em conformidade com o estatuto social onde é vinculado. "Como pastores, nunca fazemos imposições aos membros em relação as suas condutas, apenas os aconselhamos dentro da nossa Declaração de Fé (Credo)", disse.

Sobre Bolsonaro, Cecon afirmou "não ter como cobrar atitudes de vizinhos". "Sou pai e avô. Como pai, ensino e cobro apenas as atitudes dos meus filhos. Não tenho o direito de corrigir o filho do meu vizinho", declarou.

O presidente da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, deputado Silas Câmara (Republicanos-AM), afirmou que pastores não aconselham o jogo aos membros das igrejas e que ele mesmo nunca apostou. Apesar disso, declarou que não vê na atitude de Bolsonaro "nada que milhares de brasileiros não façam" e que isso não vai atrapalhar a sua relação com os evangélicos.

"Todos sabiam disso na eleição de 2018 e preferiram ele, com seus limites e defeitos, mas comprometido com Deus, família e povo, que são as nossas pautas. Outros aparentemente não têm essas dificuldades, mas o coração é cheio de propósitos do mal", defendeu o deputado, que também é da Assembleia de Deus.

Questionado sobre as atitudes do presidente, o deputado Marco Feliciano (sem partido-SP), que é pastor da Catedral do Avivamento, denominação neopentecostal ligada à Assembleia de Deus, disse que isso é "de foro íntimo" e que Bolsonaro é católico e a esposa dele que é evangélica". A primeira-dama Michelle Bolsonaro frequentava a Igreja Batista Atitude, no Rio de Janeiro.

"O presidente é católico, você já ouviu isso inúmeras vezes e leu sobre isso", disse. Sobre a questão do jogo, Feliciano respondeu que "não quer se meter nesse assunto".

Já os pastores Silas Malafaia e Everaldo não responderam à reportagem. Malafaia já escreveu um artigo condenando os jogos de azar, afirmando que podem ser uma brincadeira inocente, mas tornam-se um vício que dominam aqueles que estão fascinados pela ideia de apostar pouco e ganhar muito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.