PUBLICIDADE
Topo

Crise Climática

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Guerra expõe modelo insustentável e dependente da agricultura brasileira

Conteúdo exclusivo para assinantes
Cínthia Leone

Cínthia Leone é ambientalista e divulgadora científica, formada em jornalismo pela Unesp e doutora em Ciência Ambiental pelo PROCAM-USP.

Colaboração para o UOL, em São Paulo

10/03/2022 11h00

Esta é parte da versão online da edição desta quinta-feira (10/03) da newsletter Crise Climática, que discute questões envolvendo a emergência climática, como elas já afetam o mundo e quais são as previsões e soluções para o futuro. Para assinar o boletim e ter acesso ao conteúdo completo, clique aqui

O modelo de produção mais usado no Brasil optou pela importação de fertilizantes solúveis - principalmente Nitrogênio, Fósforo e Potássio, o chamado NPK - como forma de expandir a agricultura no país desde os anos 1970. Soja, milho, cana-de-açúcar e algodão, as estrelas do agronegócio exportador, são as culturas que mais usam esses insumos, mas a indisponibilidade desses produtos no exterior em função da guerra da Rússia na Ucrânia deve impactar todos os setores agrícolas.

Não precisava ser assim. A geóloga Suzi Huff Theodoro faz parte de um movimento científico que defende a rochagem, um processo que extrai minerais úteis para a agricultura do pó de pedras abundantes por todo o território nacional, como o basalto. A grande geodiversidade do Brasil seria um trunfo, explica a estudiosa, porque permite que qualquer área rural não esteja mais do que 500 km distante de reservas com este potencial.

Entre as vantagens da remineralização do solo, está o baixo custo e o fato de que o processo transforma as culturas em sumidouros de CO2 - veja matéria completa do UOL. A desvantagem é que o uso desse pó de rocha implica em um processo mais lento de absorção de nutrientes. Os fertilizantes solúveis, por sua vez, geram contaminação do solo e da água, já que as plantas não conseguem absorver os excedentes, contribuindo, inclusive, para aumentar as emissões de gases de efeito estufa.

"Remineralizar é uma técnica que visa o solo. Em um solo equilibrado, o desenvolvimento das raízes é muito maior em qualquer tipo de cultura - soja ou florestas inteiras. O modelo convencional só quer que a planta cresça rapidamente, destruindo o solo no longo prazo e induzindo a busca por mais terras", explica a pesquisadora, que contribuiu com os debates que geraram a Lei 12890 de 2013 e a instrução normativa que regulamenta a atividade.

Um dos pioneiros do tema, Othon Leonardos chegou a ser chamado de louco quando propôs esta abordagem no final do século 20. Estudos internacionais recentes, apontando inclusive o Brasil como um dos maiores hotspots para a técnica, têm silenciado às críticas e ajudado a expandir o modelo.

Em 2018, três empresas estavam aptas para este tipo de produção no país. Agora são quase 30. Em 2019, 650 mil toneladas de fertilizantes (diferentes substâncias) foram produzidas por meio da rochagem. Este patamar subiu para 1 milhão de toneladas em 2020, 1,5 milhão de toneladas em 2021 e a estimativa é de 3 milhões de toneladas para este ano, com projeções apontando para até 75 milhões de toneladas ao final desta década, segundo Theodoro e em linha com o Plano Nacional de Mineração.

"As empresas que já têm o registro para fazer esta atividade não estão conseguindo atender a demanda", informa Theodoro. Ela lamenta que apesar do crescimento vertiginoso, ainda há muita resistência a fazer esta opção mais sustentável em termos ambientais e econômicos.

"Não se pode ignorar a geopolítica por trás deste modelo, que determina as autonomias e as dependências globais por insumos. Há uma elite brasileira, incluindo cientista e legisladores, que quer manter esta dependência como forma de garantir vantagens econômicas para setores específicos, mesmo sabendo que no futuro haverá um fim para este modelo."

No curto prazo, o preço a pagar por esta escolha será alto. O engenheiro agrônomo Lisandro Inakake de Souza, do Imaflora, alerta que a baixa oferta de potássio no mercado externo será pior para países do Hemisfério Sul, que iniciam o planejamento do ano agrícola entre maio e junho, enquanto o Norte já fez as aquisições necessárias para garantir sua safra anual.

"A crise que se avizinha também reflete um modelo de agronegócio que tenta se vender como uma indústria sofisticada, mas ignora as vantagens de sua geografia tropical e não investe em infraestrutura", afirma o pesquisador. Ela explica que o Plano Nacional de Fertilizantes, que será apresentado nos próximos dias e terá como base este documento, seguirá ignorando as fontes alternativas.

E o que mais você precisa saber:

mineração, terras indígenas - Foto:  Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso - Foto:  Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso
Imagem: Foto: Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso

Guerra contra Terras Indígenas

A imprensa brasileira e estrangeira dá ampla repercussão para a tentativa de Jair Bolsonaro e do Congresso de usar a guerra na Ucrânia para passar mais uma "boiada". Tanto os parlamentares como o presidente querem usar a dependência do agronegócio brasileiro de potássio importado como pretexto para legalizar a mineração em Terras Indígenas (TIs) com a aprovação do PL 191/2020. Estadão e Ciclo Vivo destacam que há reservas de potássio fora das TIs, enquanto o Diálogo Chino reforça os impactos que uma medida como esta teria sobre a Amazônia. O professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Raoni Rajão, fez um fio com dados e fontes que desmentem o argumento do lobby contra as Terras Indígenas.

amazônia - Lilo Clareto/Divulgação - Lilo Clareto/Divulgação
Imagem: Lilo Clareto/Divulgação

Antecipando o fim do mundo

A Nature publicou um artigo na segunda-feira (7) que mostra que 75% da Amazônia pode estar perdendo sua resiliência, ou seja, a capacidade de se recuperar totalmente de impactos ambientais. Isso estaria levando o bioma a se tornar um ecossistema seco e degradado - o chamado tipping point. O fenômeno já estava previsto pelos cientistas como resposta ao aquecimento global e ao aumento do desmatamento local, mas era estimado para ocorrer quando a perda de floresta estivesse mais avançada. O novo estudo mostra que as áreas de florestas que estão de pé podem conter árvores em processo avançado de adoecimento em função da degradação já em curso.

queimadas na amazonia - Joao Laet / AFP - Joao Laet / AFP
Queimadas na Amazônia
Imagem: Joao Laet / AFP

O melhor do Brasil é o brasileiro

Os brasileiros estão entre os que mais reconhecem que o aquecimento global é real (96%) e é causado pela ação humana (77%). Tanto os brasileiros que se declaram mais à esquerda (88%) como os mais à direita (75%) consideram o tema muito importante. Esses são dados de uma pesquisa de opinião realizada pelo IPEC, em 2021, a pedido do ITS e divulgada ontem (9). Os resultados são consistentes com o levantamento anterior, conduzido pelo Ibope em 2020, em uma série que faz parte de um levantamento global liderado pela Universidade de Yale, que monitora como a população dos EUA avalia o tema.

ato pela terra - Adriano Machado/Reuters - Adriano Machado/Reuters
Grupos indígenas participam de reunião com parlamentares no Congresso Nacional, em Brasília, como parte das ações do Ato pela Terra, protesto contra as políticas ambientais do governo Bolsonaro
Imagem: Adriano Machado/Reuters

Ato pela Terra

Ontem (9) Caetano Veloso liderou um Ato em Frente ao Congresso pedindo a derrubada do Pacote da Destruição - um conjunto de projetos que facilitam o desmatamento e ameaçam populações indígenas. A Comissão de Meio Ambiente do Senado recebeu artistas e ativistas que participaram do protesto em Brasília. "É impossível que qualquer pessoa, em sã consciência, não esteja sabendo que a crise ambiental caminha para um ponto irreversível. Mais do que isso, não há um segmento sequer do País que não vá sofrer as consequências de todos esses danos, o cenário é ruim para todos", disse o cantor Nando Reis à reportagem do Estadão, durante o ato.

LEIA MAIS NA NEWSLETTER

Há pouco mais de 3 meses, gigantes do agronegócio apresentaram compromissos na Conferência do Clima da ONU para frear a destruição das florestas. Em paralelo, estavam fazendo um forte lobby contra as leis ambientais na Europa que vão proibir a importação de produtos ligados ao desmatamento.

Assinante UOL tem acesso a todos os conteúdos exclusivos do site, newsletters, blogs e colunas, dicas de investimentos e mais. Para assinar o boletim Crise Climática e conhecer nossas outras newsletters, clique aqui.