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Crise Climática

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Catástrofes acontecem? Como Recife pode enfrentar o clima extremo

Mais de 100 pessoas morreram durante forte chuva na região metropolitana do Recife - Reprodução/Reuters
Mais de 100 pessoas morreram durante forte chuva na região metropolitana do Recife Imagem: Reprodução/Reuters
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Cínthia Leone

Cínthia Leone é ambientalista e divulgadora científica, formada em jornalismo pela Unesp e doutora em Ciência Ambiental pelo PROCAM-USP.

Colaboração para o UOL, em São Paulo

02/06/2022 11h00

Esta é parte da versão online da edição desta quinta (2) da newsletter Crise Climática. A versão completa, apenas para assinantes, traz uma entrevista com Patrícia Pinho, que será uma das palestrantes do curso sobre Justiça Climática oferecido pelo do Pacto Global da ONU. Ela fala da importância do tema para o avanço da agenda de adaptação às mudanças climáticas no país e avalia que o modelo de desenvolvimento socio-econômico está na berlinda. Para assinar o boletim, clique aqui.

Recife está quase no mesmo nível do mar. A elevação dos oceanos representa um risco concreto de invasão da água marinha no centro e em toda a região de Boa Viagem. Esta é uma das razões que fazem desta a capital mais vulnerável às mudanças climáticas no Brasil e a 16ª cidade do mundo, segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU). A outra é o volume de água que vem do interior do estado, pelo Rio Capibaribe, que, desde a cheia de 1975, conta com barragens em seu leito para conter os fluxos que chegam à capital pernambucana.

Não foi suficiente. Apesar das barragens terem segurado boa parte das águas, apenas a chuva que caiu sobre a região metropolitana —cerca de 359,4 milímetros em quatro dias, segundo a Apac (Agência Pernambucana de Águas e Clima) - foi suficiente para gerar a maior tragédia da história da cidade em vidas perdidas. Ao menos 120 pessoas morreram.

"Isto já é resultado das mudanças climáticas. Nós tivemos em poucos dias a chuva prevista para mais de um mês, uma mudança drástica do padrão histórico de chuvas, com base nos registros de quase 80 anos", afirma a engenheira civil Maria do Carmo Sobral, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro da Academia Pernambucana de Ciências.

As mudanças climáticas globais agravam eventos meteorológicos em escala local. O evento meteorológico que causou a chuva extrema do Recife é chamado de DOLs (Distúrbios Ondulatórios de Leste) e é comum na região nesta época do ano. Diferentes das frentes frias, o DOLs se caracteriza como um conjunto de nuvens carregadas sobre o oceano e que avançam em direção à costa leste do Nordeste.

"A situação particular que nós temos este ano é que o oceano na costa do Nordeste está mais quente do que o normal, o que aumenta a umidade que alimenta essas nuvens de chuva que formam o DOLs", explica a meteorologista do Climatempo Josélia Pegorim. "As chuvas de junho cairão sobre terrenos e rios já completamente saturados, o que é bastante preocupante."

Estava escrito. Há poucos meses o IPCC reforçou seu alerta ao governo brasileiro, por meio de seu relatório aos tomadores de decisão, sobre a alta vulnerabilidade da região Nordeste a eventos extremos de chuva e seca. O painel afirma que mesmo que as emissões globais de gases de efeito estufa diminuam rapidamente (estão aumentando), a população brasileira afetada por enchentes deve dobrar ou triplicar nas próximas décadas.

Em visita à cidade, o presidente da República, Jair Bolsonaro, afirmou que "catástrofes acontecem". Mas como naturalizar esta tragédia, se os riscos já são amplamente conhecidos por pesquisadores brasileiros, do exterior e também pelos governos?

"Não concordo com o presidente. As catástrofes podem ser evitadas ou minimizadas para proteger a vida das pessoas acima de tudo", defende Sobral, que dá exemplos de planos de contingência bem executados em outros países, em situações diversas, de incêndios a atividades vulcânicas. "Em primeiro lugar, nós precisamos fazer uma reflexão profunda sobre as desigualdades sociais. Quem são aquelas pessoas atingidas?", indaga a pesquisadora.

A mudança climática não é apenas o fato de a atmosfera estar mudando. Ela espelha a insustentabilidade da nossa sociedade. O risco é socialmente construído, não é culpa da natureza, é culpa da forma como a sociedade se estrutura" Fernando Rocha Nogueira, geólogo e professor da Universidade Federal do ABC e um dos maiores especialistas do país em gestão de riscos.

Sobral defende que a vulnerabilidade climática do Recife seja enfrentada primeiro com um programa emergencial de habitação para que as chuvas até o fim do inverno não gerem novas tragédias. Também no curto prazo, ela defende o envolvimento de lideranças comunitárias nas ações de defesa civil, além de uma melhoria na comunicação para evacuação de regiões vulneráveis. "Outro problema urgente é a drenagem. Nós temos um plano de macrodrenagem de 1916. Além dos deslizamentos, a cidade ficou completamente alagada porque os canais foram entupidos de lixo e muitos rios foram aterrados", explica.

Na mesma linha, Nogueira diz que é necessário envolver a comunidade em planos emergenciais de contingência, enquanto são planejadas obras de qualificação urbana para aumentar a resiliência de regiões vulneráveis. Ele também defende melhorias e mais interdisciplinariedade na criação dos mapas de áreas de risco, e cita como exemplo a tragédia em Franco da Rocha (SP) este ano, onde a área de deslizamento com a maior mortalidade estava classificada para risco médio.

"Recife tem feito um bom discurso sobre adaptação à mudança do clima, mas o que tem feito em termos de obra, de reforma urbana? Metrópoles nos EUA e na Europa estão fazendo grandes investimentos em preparação para um clima mais instável, incluindo a renaturalização de rios e córregos", afirma o pesquisador. "Então tem muita experiência acumulada que nós podemos buscar."

E O QUE MAIS VOCÊ PRECISA SABER

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Ativistas pelo clima seguram cartazes iluminados durante a COP26 em Glasgow, na Escócia
Imagem: Ben Stansall/AFP

SEM CLIMA

Começa hoje (2) o Stockholm+50, dois dias de eventos pelo 50º aniversário da primeira conferência da ONU sobre Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, na Suécia. Liderado por Greta Thunberg e Vanessa Nakate, o movimento juvenil pelo clima organizou eventos paralelos na cidade para deixar claro que não há o que comemorar. Em cinquenta anos, 20% da Floresta Amazônica foi perdida, a concentração de CO2 na atmosfera cresceu 32% e a produção de plástico aumentou 660%. Ontem, ativistas climáticos e refugiados ucranianos pediram o fim da era dos combustíveis fósseis por estarem na base da crise climática e dos conflitos armados.

conta de luz - Nivaldo Souza/Colaboração para o UOL - Nivaldo Souza/Colaboração para o UOL
Imagem: Nivaldo Souza/Colaboração para o UOL

CONTA DE LUZ

Entidades do setor elétrico querem revogar a obrigação de criação de novas termelétricas. Este ônus tem origem em uma emenda "jabuti" inserida na lei de privatização da Eletrobras, no ano passado. Elas afirmam que a manutenção das térmicas pode gerar um aumento de R$ 52 bilhões no custo de geração de energia no país até 2036, com impactos para as empresas e consumidores residenciais.

greenwashing - istock - istock
a falsa sustentabilidade
Imagem: istock

COLARINHO VERDE

O greenwashing —o hábito das empresas de mentir sobre a sustentabilidade de seus negócios, começa a ter consequências criminais na Europa. O presidente-executivo da principal gestora de ativos alemã DWS, Asoka Woehrmann, está deixando o cargo sob a acusação de ter enganado acionistas sobre investimentos "verdes". Os promotores alemães acusam o executivo de violações regulatórias, incluindo lavagem de dinheiro e venda indevida de títulos, que geraram bilhões em multas ao grupo. O Deutsche Bank é o principal acionista do DWS, e afirma estar conduzindo uma série de investigações internas.

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