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Crise Climática

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Agenda verde do novo governo da Colômbia enfrenta desafios

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Cínthia Leone

Cínthia Leone é ambientalista e divulgadora científica, formada em jornalismo pela Unesp e doutora em Ciência Ambiental pelo PROCAM-USP.

Colaboração para o UOL, em São Paulo

23/06/2022 11h00

Esta é parte da versão online da edição desta quinta (23) da newsletter Crise Climática. A versão completa, apenas para assinantes, traz uma matéria que mostra que as empresas de gás dos EUA estão faturando alto, com aumento vertiginoso na produção desde que a Rússia entrou em guerra. Pesquisadores alertam que metas climáticas não podem esperar, e o uso do gás precisa ser abandonado rapidamente. Para assinar o boletim, clique aqui.

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A vitória de Gustavo Petro na Colômbia evidencia tanto o fortalecimento como o esverdeamento da esquerda na América Latina. A tendência foi inaugurada com a eleição de Gabriel Bóric, no Chile, há 6 meses, que assim como seu homólogo colombiano defende uma transição ecológica justa para uma economia de baixo carbono. Os dois entendem que o extrativismo mineral não será capaz de gerar o nível de riqueza, equidade e bem-estar agora exigidos em seus países. No caso da Colômbia, os desafios parecem ser maiores.

Economista e pós-graduado na Bélgica em meio ambiente e desenvolvimento, Petro defende uma agenda econômica verde desde os anos 1990. Ele quer que a Colômbia abandone o caminho que vinha trilhando para se tornar um petro-estado, o termo que define países cuja economia é total ou muito dependente de combustíveis fósseis - Rússia, Venezuela, Angola e Kuwait, por exemplo.

Hidrocarbonetos correspondem hoje a mais da metade das exportações colombianas e a pouco mais de 10% da receita do Estado. Em 2020, o país era o quarto maior exportador de carvão mineral do mundo, sendo também um importante fornecedor de petróleo e gás para os EUA. As hidrelétricas, fortemente dependentes de regimes de chuvas e clima estáveis, respondem por menos de 20% do mix de energia total e cerca de 70% do setor elétrico, segundo dados de 2019 da AIE (Agência Internacional de Energia). Apenas 3% do consumo de energia do país vem de fontes renováveis modernas, como solar e eólica.

O plano de Petro prevê que os combustíveis fósseis atendam prioritariamente o mercado interno, deixando progressivamente de serem exportados. A política climática idealizada por ele também proibiria novos projetos de exploração, dando impulso às renováveis. "Três venenos: carvão, petróleo e cocaína. Esta é a forma como a Colômbia vem se relacionando com o mundo", disse Petro em discurso de campanha no dia 16 de maio, defendendo uma diversificação na qual a agroindústria passaria a ter mais importância.

Uma parte da imprensa colombiana deu destaque ao argumento de que a proposta é suicida e irreal, mas ela é, em sua essência, o que cada país signatário do Acordo de París se comprometeu a fazer. E há um caráter econômico evidente em planejar o abandono de fontes de energia - sobretudo o carvão - que já estão condenadas pelo enfrentamento às mudanças climáticas.

A política ambiental do próximo governo tem um lastro adicional: a vice-presidente, Francia Márquez. Ela se engajou na militância ambiental ainda na adolescência, quando a mineração e o garimpo de ouro avançaram sobre sua terra natal, La Toma, uma comunidade andina formada majoritariamente por descendentes da diáspora negra escravizada no país. O garimpo gerou contaminação em massa por mercúrio e o fortalecimento do crime organizado.

Márquez, então uma jovem trabalhadora da mineração, percebeu que só poderia enfrentar esse quadro se soubesse a língua de seus adversários: o juridiquês. Em uma grande jornada educacional, que a levou a ser também uma militante pelo direito ao ensino superior público e gratuito, ela se tornou advogada e costurou a base de pressão política que levou o governo colombiano a banir o garimpo ilegal em La Toma e a impedir o desvio de um rio e realocação forçada de sua comunidade. Seu ativismo custou ameaças de morte, rendeu prêmios internacionais e a tornou um apoio político decisivo para Petro.

"É necessário fazer uma mudança de economia extrativista para a produção. A Colômbia tem vários potenciais produtivos que precisam ser fortalecidos, entre eles o potencial agrícola. O campo colombiano, que tem cultivado a morte e a violência, precisa agora cultivar comida", diz Márquez em sua primeira entrevista após a vitória eleitoral à emissora Caracol.

De todo modo, a distância entre propor e concluir uma transição ecológica na Colômbia é provavelmente maior do que os quatro anos de governo que a dupla terá pela frente. Alemanha e EUA também elegeram presidentes com agendas verdes e ambos falham até o momento em ao menos reduzir o papel dos combustíveis fósseis em suas economias. O desafio ficou maior depois das distorções no mercado de energia causadas pela guerra russa.

E o que mais você precisa saber

mudança climática - BBC - BBC
Análise conduzida por pesquisadores do Copernicus Climate Change Service (C3S), órgão ligado à União Europeia, mostra que a Terra está passando por um aquecimento sem precedentes
Imagem: BBC

VOCÊ CONHECE?

Todos os anos no solstício (21 de junho), que marca o início do inverno no hemisfério Sul e do verão, no Norte, cientistas promovem o que consideram uma ferramenta poderosa de divulgação da ciência do clima: as listras. É possível que você já tenha visto essa sequência de listras azuis e vermelhas que marcam as temperaturas médias anuais em todo o planeta desde 1889, e de cada região desde que os registros de temperatura são feitos. As listras do Brasil podem ser vistas aqui.

fake news - iStock - iStock
Fake News 006 ajustado
Imagem: iStock

FAKE NEWS

Um vídeo mostrando a morte em massa de gado bovino gerou um princípio de histeria nos EUA na semana passada. Nas redes sociais, houve quem convocasse a população a pegar em armas para lutar contra o que chamaram de tentativa de destruir o país por meio do envenenamento de rebanhos e escassez de comida - sobrou até para o Bill Gates. A Reuters fez uma apuração de checagem e constatou, com dados do governo e da indústria, a veracidade das imagens, registradas no Kansas, e menos 2 mil bovinos morreram de estresse térmico. No registro, os animais estão prostrados sob o sol inclemente em uma paisagem completamente desmatada. A morte de animais de criação durante ondas de calor está prevista para se tornar mais frequente em função das Mudanças Climáticas.

funai - Divulgação/Mario Vilela/Funai - Divulgação/Mario Vilela/Funai
Sede da Funai em Brasília
Imagem: Divulgação/Mario Vilela/Funai

NOVOS RICOS

A Agência Sportlight traz uma reportagem sobre os novos milionários que a Funai está produzindo por meio da assinatura de contratos sem licitação com empresas recém-abertas. A Distribuidora Neves, de Roraima, por exemplo, já faturou mais de 7 milhões em contratos com o órgão desde 2020, e cerca de 126 milhões como governo daquele estado. A empresa J.A. Santos, do Acre, assinou contratos de mais de 2 milhões com a FUNAI apenas três meses depois de ser criada.

Maxciel - ARQUIVO PESSOAL/REPRODUÇÃO - ARQUIVO PESSOAL/REPRODUÇÃO
Maxciel fazia fiscalização e vigilância da terra indígena.
Imagem: ARQUIVO PESSOAL/REPRODUÇÃO

VALE DO JAVARI

Os assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips jogaram luz sobre um outro crime: em setembro de 2019, o colaborador da FUNAI Maxciel Pereira dos Santos foi morto a tiros na cidade de Tabatinga, na mesma região do Vale do Javari. Durante seus 12 anos de trabalho para o órgão, Santos ganhou a reputação de ser um aplicador diligente das leis federais que protegem os povos indígenas da região. Seu assassinato continua sem solução. "Acredito que sua morte foi ordenada pelas mesmas pessoas que ordenaram a morte de Bruno", disse Noemia Pereira dos Santos, mãe de Maxciel, à reportagem do Guardian.