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Cristina Tardáguila

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Seis passos para rebater as 'fake news' do "voto impresso"

15.mai.2021 - Apesar de o voto já ser auditável, homem levanta cartaz em ato realizado em São Paulo. - BRUNO ROCHA/ENQUADRAR/ESTADÃO CONTEÚDO
15.mai.2021 - Apesar de o voto já ser auditável, homem levanta cartaz em ato realizado em São Paulo. Imagem: BRUNO ROCHA/ENQUADRAR/ESTADÃO CONTEÚDO
Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

10/06/2021 04h00

É hora de colocar os pés no chão e deixar de lado todas as teorias da conspiração que rondam o processo eleitoral brasileiro. Com desinformação não se brinca, muito menos se elas estiverem relacionadas às urnas eletrônicas.

Faltando pouco mais de um ano para o início oficial da próxima campanha eleitoral, é muito possível que você já tenha participado de calorosas discussões sobre a "volta do voto impresso" (na verdade, a implementação de impressoras capazes de gerar uma espécie de recibo do voto em papel).

É também bem provável que, apesar disso, você ainda não tenha argumentos claros e firmes para explicar a amigos e familiares quão inadequada - e até mesmo arriscada - é essa proposta de alteração no sistema eleitoral.

Foi pensando nisso - e depois de ouvir o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na sessão que a Câmara dos Deputados realizou na quarta-feira (9), que decidi listar formas de combater as seis mentiras mais frequentes sobre as eleições no Brasil.

E, que fique claro, estou de acordo com Barroso. O tal "voto impresso" é, na verdade, "uma solução desnecessária para um problema inexistente". É hora de municiar os parlamentares e a população com informações de fácil compreensão.

Então aqui vamos:

  1. A urna eletrônica é - sim - auditável. O processo tem 10 etapas. Partidos, Ministério Público e Polícia Federal podem participar da auditagem.

"(A auditoria das urnas) Começa com o teste público de segurança", disse Barroso na Câmara. "Depois, temos a abertura dos programas para os partidos e seus técnicos. Em seguida, a assinatura digital. No momento em que o programa é inserido na urna, os partidos também estão lá, se quiserem, para fiscalizar junto com o Ministério Público e a Polícia Federal. Aí nós temos a zerésima (boletim impresso pelo mesário, antes do primeiro eleitor votar, para provar que a urna não carrega nenhum voto computado anteriormente). Temos o boletim de urna (emitido no encerramento da jornada eleitoral, com o total de votos computados na seção). Há o teste de integridade, que é a seleção de urnas aleatórias para uma auditoria no dia da eleição. E temos o RDV, que é o Registro Digital do Voto, um arquivo que contém todos os votos, como se fosse uma urna de lona, só que não identificando o eleitor".

Não há razão, portanto, para que digam que a urna não pode ser auditada e que seu sistema é opaco. Leve a lista do ministro para a próxima conversa que tiver sobre esse assunto. Essa notícia falsa sobre a impossibilidade de auditar a votação eletrônica precisa acabar.

  1. As urnas não podem ser violadas e não houve fraude em eleições passadas.

É importante repetir sempre: as urnas eletrônicas não estão conectadas à internet e, portanto, "não são passíveis de acesso remoto".

Fora isso, desde 1996, quando o sistema eletrônico foi adotado, nunca se documentou nem se comprovou nenhum caso sequer de fraude. Em 2014, o PSDB chegou a solicitar uma checagem junto ao TSE e, segundo informou o deputado tucano Rodrigo de Castro (MG) nesta quarta-feira, a sigla acabou concluindo que não houve qualquer problema no pleito e que a urna é confiável.

É fato que o presidente Jair Bolsonaro faz sucessivas declarações questionando a integridade do sistema eleitoral brasileiro. É o que ontem, na Câmara, um deputado chamou como "choro de vencedor". Mas é importante notar - e sempre ressaltar - que as falas de Bolsonaro nunca vieram acompanhadas de qualquer tipo de comprovação ou documentação. São, portanto - e no mínimo -, insustentáveis.

  1. O voto impresso não aumenta a credibilidade da eleição.

Estamos diante de um perfeito paradoxo tecnológico. Se você duvida da urna, por que confiaria no recibo de voto que ela imprimiu? Acompanhe o raciocínio do ministro Barroso:

"Quem determinará a impressão do voto será a mesma urna que computou o voto eletrônico. Portanto, se decorre do mesmo programa, não há como se considerar que seja mais seguro. Nós estaríamos criando pelo voto impresso um mecanismo de auditoria menos seguro do que o objeto da auditagem, que é a urna eletrônica. Essa eu considero que é uma contradição insuperável".

Eu também.

Ainda é importante destacar que a proposta que tramita no Congresso sugere que "o voto impresso" seja usado para verificação de possíveis fraudes. Mas, convenhamos: achar que uma multidão recontando papel é capaz de garantir a integridade de um processo eletrônico é querer voltar no tempo.

"É voltar à vida analógica, no mundo da revolução digital", afirmou Barroso.

  1. Não é porque vários países desenvolvidos preferem o voto em papel que temos que segui-los.

Nas palavras de Barroso, "cada país se assusta com as assombrações que tem". Na Alemanha, o voto em papel não é um problema, e os alemães o utilizam sem problema. Mas, ao longo da história brasileira, repleta de coronelismo, clientelismo e votos por cabresto, o voto em papel sempre foi considerado um problema. Caminho direto para fraudes.

Também é curioso lembrar que o questionamento suscitado nas últimas eleições presidenciais dos Estados Unidos referia-se justamente ao voto por papel, via correio. Qual modelo seria, então, mais eficiente?

  1. Mesmo que um hacker invada o TSE, a eleição não será afetada.

É claro que ninguém está imune a ataques. Se Nasa e FBI padecem com ameaças hacker, o TSE possivelmente também enfrenta (ou enfrentará) uma guerra cibernética. Porém, vale lembrar que ainda que hackers consigam derrubar o sistema eleitoral do Brasil - o que, segundo Barroso, nunca aconteceu - eles não terão como comprometer o resultado das eleições. As urnas eletrônicas jamais estão integradas a esse sistema e, como já dito, não estão ligadas à Internet. O voto computado na urna fica lá.

  1. Ter o "voto impresso" custa muito. E demora bastante.

Cálculos apresentados pelo ministro Barroso sugerem que, para instalar as impressoras junto às urnas eletrônicas, o Brasil precisaria fazer um investimento de R$ 2 bilhões. Há poucas semanas, no entanto, o governo federal anunciou que, por falta de verbas, não faria o Censo Demográfico, que já está atrasado.

Além da evidente contradição financeira, o país teria que enfrentar o relógio. Reportagem publicada pela Folha mostrou que dificilmente haveria tempo hábil para a implantação de impressoras eleitorais em todo o país. Para fazer processo semelhante, a Índia demorou cerca de seis anos. Ou seja, esse debate não pode ser açodado nem sustentado por desinformação.

Cristina Tardáguila é fundadora da Agência Lupa e também escreve sobre desinformação para a Univision e a Fundación Gabo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL