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Democracia e Diplomacia

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como a culinária pode ajudar a reconstruir a política externa brasileira?

Fotos: Alessandra Levtchenko, Tratamento de imagem: Sandro Iung, Direção de Arte: Gisele Pungan, Produção: Mitsu Shimosakai, Produtos orgânicos: @domatopracasa
Imagem: Fotos: Alessandra Levtchenko, Tratamento de imagem: Sandro Iung, Direção de Arte: Gisele Pungan, Produção: Mitsu Shimosakai, Produtos orgânicos: @domatopracasa
Democracia e Diplomacia

Coluna é voltada ao debate de como construir uma política externa conforme aos valores e interesses do Brasil, em linha com os princípios constitucionais do país. Dialoga com o Programa Renascença, projeto de construção coletiva de uma política externa pós-Bolsonaro, com a participação de diplomatas, outros servidores públicos e diferentes atores sociais, coordenado pelo Instituto Diplomacia para Democracia, instituição sem fins lucrativos. O espaço da coluna estará aberto a diferentes vozes brasileiras para debater aspectos importantes para definir a inserção internacional do Brasil, a projeção de sua identidade e a promoção de seus valores democráticos. Entre os temas a serem tratados estão a redução das desigualdades, o desenvolvimento sustentável, a integração regional, a solidariedade internacional, o universalismo, a participação social e a modernização das instituições que conduzem nossa diplomacia

Colunista do UOL

02/02/2022 04h00

Renato Bilotta da Silva*

A reconstrução da política externa brasileira é cada vez mais urgente em diversos eixos: meio ambiente, direitos humanos, integração regional, multilateralismo. O projeto do Diplomacia para Democracia tem aberto espaços para propor novas formas de inserção internacional, algumas pouco exploradas nos meios acadêmicos mais convencionais. Uma delas é relativamente nova, mas com perspectivas promissoras: a diplomacia culinária, também chamada de gastrodiplomacia.

A gastrodiplomacia é o uso da culinária nacional para fortalecer a imagem internacional de um país. O termo surgiu em 2002, quando uma reportagem do semanário The Economist destacou os esforços realizados pelo governo da Tailândia para aumentar o turismo ao país por meio do treinamento e incentivo à abertura de restaurantes tailandeses por nacionais residentes nos Estados Unidos. É uma estratégia inovadora que enriquece as relações diplomáticas mais tradicionais.

Muitos países têm adotado essa estratégia gastrodiplomática, seja porque carecem de influência internacional tradicional (conquistada através do poder econômico e/ou militar), seja para demarcar e ressaltar suas identidades fora de suas fronteiras. Essa discussão está longe de ser insignificante: ao exportar sua culinária, você também exporta um conjunto de valores sobre o país. Não é surpresa que muitos países, em especial os europeus, sejam agressivos quanto ao registro de produtos geográficos como queijos, vinhos e outros produtos a fim de evitar cópias.

Há até casos em que a demarcação culinária pode se tornar central para a reafirmação de uma nacionalidade, como é o caso do prato homus, que embora esteja presente no cardápio de todas as culturas árabes do Oriente Médio faz pelo menos oito séculos, é disputado como patrimônio culinário exclusivo de países como Israel e Líbano.

É importante destacar que a gastrodiplomacia exige uma série de esforços não só entre diferentes ministérios, como também da esfera privada e da sociedade civil. A criação de uma estrutura governamental que promova a culinária nacional e apoie associações comerciais foi o modelo que países como Coréia do Sul, Taiwan, Malásia, Peru e Tailândia optaram. Foram bem-sucedidos: o soft power gastrodiplomático contribuiu para que alguns multiplicassem fluxos turísticos. A Tailândia - pioneira na estratégia - saltou de cerca de 10 mil turistas anuais em 2002 para quase 40 mil turistas em 2019.

Porém, não se inventa uma culinária popular do zero da mesma forma que não se inventa uma cultura popular do nada. A estratégia gastrodiplomática só sobrevive se estiver em diálogo com as comunidades locais para que suas culturas e tradições ligadas à culinária se reafirmem e confiram autenticidade popular.

Atualmente, toda essa discussão parece estar distante do contexto brasileiro, mas na realidade, já está em debate. Quando o presidente Bolsonaro se recusa a participar de jantares internacionais, optando por restaurantes brasileiros ou consumindo miojo, não apenas alimenta a imagem de "homem do povo", mas também sinaliza sua conhecida dificuldade em estabelecer laços e trocas culturais com outros povos, no caso através da culinária . Assim, é até possível especular a existência de uma espécie de gastrodiplomacia negativa, atuando para minar a imagem internacional de um país.

Há no Brasil iniciativas que, embora busquem outros objetivos, podem ser entendidas como protótipos de estratégias gastrodiplomáticas. Os relatórios elaborados pela APEX Brasil sobre as oportunidades de mercado para produtos brasileiros e a promoção do café brasileiro através da marca Cafés do Brasil mostram que é possível desenvolver esta vertente diplomática. Nossa grande variedade e diversidade culinária, potencializada pela migração de mais de 4 milhões de brasileiros, abre terreno fértil para a gastrodiplomacia. Se houver apoio institucional e logístico a estas comunidades, a gastrodiplomacia pode se tornar uma das ferramentas de reconstrução da imagem do Brasil.

Antes de finalizar, parece essencial discutir uma contradição aparente nos países em desenvolvimento, e mais especificamente no cotidiano em que vivemos: como a promoção da culinária nacional pode conviver com a fome e a carestia?

Como um país pode exaltar a feijoada e a caipirinha enquanto milhares não tem como comer um prato de arroz com feijão? Esta aparente contradição deve promover uma discussão que ainda não é feita no Brasil nem entre os países promotores da gastrodiplomacia: a defesa da segurança alimentar como ferramenta gastrodiplomática.

Nos tempos em que vivemos, melhor lembrar de Betinho : "a alma da fome é a política". Por que não bem alimentá-la com o que temos de melhor para dar de comer e beber? Para além de construir uma imagem positiva através da culinária, os países em desenvolvimento, especialmente o Brasil, podem mostrar ao mundo que a melhor gastrodiplomacia possível é a que garante à sua própria população a soberania alimentar. Sair do mapa da fome e ter órgãos e políticas públicas de segurança alimentar e alimentação saudável são pré-condições para promoção da gastrodiplomacia.


*Renato Bilotta da Silva é bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e em Ciências e Humanidades pela mesma instituição. Pesquisa políticas públicas para gastrodiplomacia e diplomacia culinária.