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Diálogos Públicos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A Moda é Política

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Diálogos Públicos

Diálogos Públicos é uma iniciativa que surge da Rede de Egressos de Políticas Públicas, em parceria com docentes da Universidade Federal do ABC (UFABC), que busca ampliar o debate sobre as políticas públicas no Brasil, assim como da carreira de gestor(a) público(a) e especialista em políticas públicas. Nosso objetivo é fortalecer e ampliar os diálogos sobre políticas públicas por meio da divulgação resultados de trabalhos científicos na área, da discussão sobre as atualidades e principais acontecimentos políticos. Sempre prezando pela diversidade, defesa da democracia e suas instituições, transparência e cidadania ativa."

Colunista do UOL

19/04/2022 09h52

Vanessa Elias de Oliveira*

O que a indústria da moda tem a ver com a política? Tudo! A indústria da moda, que engloba os designers, influenciadores e empresários da moda, não entra normalmente em assuntos de política - ao menos no Brasil -, mas isso não significa que a moda seja, ou deva ser, apolítica. Há uma enorme confusão entre política, no sentido abrangente do termo, e política partidária. Ser apartidária é uma coisa, ser apolítica é outra.

Nos Estados Unidos pré-vitória de Trump, em 2016, a indústria da moda atuou de maneira bem pouco convencional: diversos designers e editores de moda, dentre eles Anna Wintour, editora da prestigiosa revista Vogue, apoiaram a campanha de Hillary Clinton. Além de ser mulher, Clinton era a candidata do Partido Democrata, que estava no poder com Obama nos 8 anos anteriores, e que teve na primeira-dama, Michelle Obama, uma importante aliada da moda - ela apoiava diuturnamente (e politicamente também) os designers de moda americanos. Trump ganhou, mas a indústria de moda não parou de atuar politicamente nos Estados Unidos.

Nas campanhas eleitorais de 2020 optou por ser apartidária, mas não apolítica. Iniciou-se naquele país, onde o voto não é obrigatório, uma campanha pelo comparecimento eleitoral. A iniciativa Fashion Our Future 2020, voltado para estimular o registro de novos eleitores, contou com o apoio de diversos nomes do mundo da moda, dentre eles Virgil Abloh, da Off-White e Louis Vuitton. Com este mesmo objetivo, Michelle Obama criou a iniciativa When We All Vote, contando com o suporte valioso de outros nomes poderosos da moda.

Sem entrar em detalhes da relação entre moda e política nos Estados Unidos, história esta muito bem contada em artigo de Vanessa Friedman para o The New York Times ("Politics is Back in Fashion"), o fato é que a indústria da moda já percebeu, ao menos ali, que no mundo das redes sociais e da polarização que marca o debate político mundo afora, já não são mais aceitáveis o silêncio e a alienação.

No Brasil, uma série de eventos recentes envolveu a indústria do entretenimento e a política. Os episódios de manifestação político-partidária no Lollapalooza, em São Paulo, foram emblemáticos, assim como a manifestação da super artista pop Anitta, conclamando os jovens para tirarem o título de eleitor. É certo que o meio artístico historicamente se posiciona politicamente, inclusive por meio das músicas, peças, livros e artes plásticas que cria. Artistas sofrem ataques por escolhas partidárias, é certo - Anitta, por exemplo, tem sido perseguida por grupos bolsonaristas, assim como Pabblo Vittar, Taís Araújo, Felipe Neto e tantos outros. Mas, muitas vezes essas expressões são apartidárias, não apolíticas; ao contrário, ressaltam e chamam a atenção para a política, a democracia e a cidadania como elementos centrais da vida social, cumprindo um papel importante para o avanço civilizatório no país.

A indústria da moda no Brasil, no entanto, ainda não assumiu este relevante papel social. As políticas do trabalho escravo, do garimpo ilegal de ouro, dos pesticidas que afetam a produção do algodão, dentre tantas outras, têm relação direta com o mundo fashion, mas este tem preferido o silêncio em temas políticos. Um tema atual e que merece a atenção é a importância de os jovens tirarem seus títulos de eleitor. O engajamento de jovens no processo eleitoral é o mais baixo desde 2004, apesar dos esforços do Tribunal Superior Eleitoral para aumentar seu alistamento eleitoral. Se as influenciadoras de moda, que são muitas e que de fato influenciam milhares de jovens, assumissem esse papel, estariam fazendo um bem para a política brasileira. Não para o partido A ou B, mas para a democracia e a cidadania. Além disso, se colocariam num debate cuja omissão só envergonha. O prazo para novos registros termina em 4 de maio; portanto, ainda dá tempo de assumirem esta responsabilidade. A sociedade, que movimenta a enorme indústria da moda, só tem a ganhar.

* Vanessa Elias de Oliveira é cientista política e professora associada da graduação e pós-graduação em políticas públicas da UFABC.