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Diogo Schelp


Uma sugestão de embaixada para Abraham Weintraub

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, em foto publicada em seu Twitter em julho de 2019 - Reprodução
O ministro da Educação, Abraham Weintraub, em foto publicada em seu Twitter em julho de 2019 Imagem: Reprodução
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

17/06/2020 18h29

Seria leviano afirmar que a permanência de Abraham Weintraub no cargo de ministro da Educação se tornou insustentável. Afinal, ela já era insustentável em abril de 2019, quando ele ameaçou cortar verbas de universidades que promovessem "balbúrdia" e, após um ano de uma gestão para lá de precária, só pode ser definida como inexplicável.

O ministro gastou mais tempo promovendo (qual é mesmo a palavra?) balbúrdia no Twitter, atacando desafetos do bolsonarismo, comprando briga com a China e sugerindo a prisão de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Agora, porém, que seu nome foi mantido no inquérito de fake news do STF, em decisão do plenário da corte, fica difícil imaginar o que ainda pode sustentá-lo no cargo. A continuar assim, Weintraub pode até acabar preso.

Os filhos do presidente, que defendem com unhas e dentes a ala olavista do governo federal, da qual Weintraub faz parte, querem que ele fique. Mas a Folha de S.Paulo noticiou que Jair Bolsonaro já busca uma saída honrosa para o leal ministro, talvez no comando de alguma embaixada brasileira no exterior.

Um posto em que Weintraub provavelmente se sentiria bem à vontade é o de embaixador no Cairo. O Egito é governado por um militar, o general Abdel Fattah Al-Sisi, que assumiu após um golpe que derrubou o governo da Irmandade Muçulmana, em 2014.

A ditadura egípcia faz coisas com as quais os integrantes do governo Bolsonaro podem apenas sonhar. Por exemplo, no Egito apenas a administração de Sisi pode divulgar informações sobre a pandemia. Os números de óbitos e de infectados por covid-19 são maquiados para passar a impressão de que está tudo sob controle.

Um correspondente do jornal britânico The Guardian que questionou a validade dos dados foi expulso do país. Lá, não existe a menor possibilidade de um consórcio de imprensa fazer um levantamento independente das estatísticas da doença, como ocorre no Brasil.

Mas o que deixaria Weintraub mais encantado com a política no Egito é a subserviência do Poder Judiciário ao governo militar.

Desde que assumiu, Sisi mostrava-se contrariado com decisões judiciais que iam contra a sua vontade. Em janeiro de 2017, por exemplo, sua tentativa de transferir duas ilhas no Mar Vermelho para a Arábia Saudita foi derrubada em uma corte superior.

Desde então, Sisi tomou diversas medidas nos últimos anos para aumentar o controle sobre o Judiciário. Em abril do ano passado, conseguiu a aprovação de emendas à Constituição que aumentaram seus poderes — inclusive, e pela primeira vez na história do país, o de nomear os presidentes das três principais cortes do país, entre as quais a Suprema Corte Constitucional. A ONG de direitos humanos Human Rights Watch considera que a erosão da independência do Judiciário marca a "consolidação do regime autoritário" no Egito.

Uma corte suprema que não impõe empecilhos ao poder presidencial: está aí um desejo que o general Sisi tem em comum com Weintraub, o ministro da Educação que, na reunião ministerial de 22 de abril, chamou os integrantes do STF de vagabundos e sugeriu colocar todos eles na cadeia.

O único problema é que o posto de embaixador no Egito já está ocupado. O chefe da delegação, atualmente, é Antonio Patriota, ex-ministro das Relações Exteriores no governo Dilma Rousseff (PT).

Diogo Schelp