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Diogo Schelp


O que fará Bolsonaro se Trump decidir dialogar com Maduro?

Presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump  -  Alan Santos / PR
Presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump Imagem: Alan Santos / PR
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

22/06/2020 16h13Atualizada em 22/06/2020 17h49

Em entrevista publicada neste domingo no site americano Axios, o presidente americano Donald Trump não descartou a possibilidade de se encontrar com o ditador venezuelano Nicolás Maduro e mostrou pouco apreço pelo líder oposicionista Juan Guaidó, que os Estados Unidos, o Brasil e dezenas de outros países reconhecem como legítimo presidente da Venezuela. As declarações, caso se concretizem em ações, têm o potencial de criar um dilema para a política externa de Jair Bolsonaro: acompanhar os Estados Unidos em uma mudança de postura em relação à Venezuela ou manter o rumo atual?

Como Bolsonaro já fez questão de deixar claro em diversas ocasiões e em votações em entidades multilaterais, sua política externa é alinhada à dos Estados Unidos. Em julho do ano passado, por exemplo, quando orientou a Petrobras a não abastecer navios do Irã atracados em portos brasileiros, em consonância com as sanções americanas àquele país, Bolsonaro afirmou: "Nós estamos alinhados à política deles (Estados Unidos), então faremos o que temos que fazer."

No início de 2019, quando a Assembleia Nacional venezuelana, de maioria oposicionista, declarou Guaidó como presidente legítimo do país, o Brasil foi um dos primeiros, junto com os Estados Unidos, a reconhecê-lo.

Bolsonaro, aliás, foi além, recebendo as credenciais da embaixadora designada por Guaidó ao Brasil, María Teresa Belandria Expósito, num gesto meramente simbólico, sem efeito prático do ponto de vista consular. Vanessa Neumann, embaixadora de Guaidó no Reino Unido, por exemplo, espera até hoje pela oportunidade de apresentar suas credenciais à rainha Elisabeth II — e tudo indica que isso não vai acontecer.

Em março deste ano, Trump e Bolsonaro divulgaram uma nota conjunta reiterando o apoio e o reconhecimento ao "presidente interino" Juan Guaidó.

A ausência de legitimidade democrática do governo Nicolás Maduro é inquestionável, mas é preciso aceitar que a estratégia adotada pelos Estados Unidos e pelo Brasil para forçá-lo a deixar o cargo foi um fracasso.

Trump parece admitir isso na entrevista ao site americano. Ele afirma que, quando foi aconselhado a reconhecer Guaidó como "presidente interino", não o fez com muito entusiasmo. Para ele, não era algo "muito significativo" nem para o bem, nem para o mal.

Trump anda às turras com John Bolton, seu ex-conselheiro de Segurança Nacional, que lança nesta terça-feira (23) um livro sobre os bastidores da Casa Branca. Trump tentou impedir que o livro seja publicado.

Em novembro de 2018, vale lembrar, o então presidente eleito Jair Bolsonaro bateu continência para Bolton ao recebê-lo para uma conversa, no Rio de Janeiro. Pois foi Bolton quem aconselhou Trump a adotar uma estratégia linha-dura com a Venezuela, ameaçando inclusive o uso da força contra Maduro, e a reconhecer Guaidó como presidente.

Os Estados Unidos continuam batendo forte em Maduro. Em março, o governo americano ofereceu uma recompensa de 15 milhões de dólares por informações que possam levar à prisão de Maduro.

Mas não se deve subestimar a capacidade de Trump de promover reviravoltas e aceitar encontros antes inimagináveis com ditadores, como fez com o norte-coreano Kim Jong-un.

O presidente americano escreveu no Twitter, após a entrevista deste domingo, que uma conversa com Maduro só se daria para discutir os termos de sua renúncia. Mas Trump sempre coloca o sarrafo bem alto antes de começar a negociar.

Se isso ocorrer, a diplomacia de linha olavista que o chanceler Ernesto Araújo conduz no Itamaraty vai se encontrar diante de uma encruzilhada. Desviar do rumo atual, alinhando-se a Trump em negociações com Maduro, significaria desagradar o eleitorado bolsonarista que prefere uma postura de enfrentamento com regimes de vertente comunista a uma abordagem mais pragmática. Deixar de alinhar-se a uma mudança na diplomacia americana para a Venezuela, porém, também representaria um rompimento com algo que o bolsonarismo de vertente olavista preza muito: a adesão sem contestação às políticas de Trump.

Seria preciso consultar o oráculo lá na Virgínia.

Diogo Schelp