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Diogo Schelp


Vacina chinesa X vacina de Oxford: estamos livres da politização?

Imagem ilustrativa da vacina contra a covid-19, causada pelo novo coronavírus - Miguel Noronha/Futura Press/Estadão Conteúdo
Imagem ilustrativa da vacina contra a covid-19, causada pelo novo coronavírus Imagem: Miguel Noronha/Futura Press/Estadão Conteúdo
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

06/07/2020 16h18

Quanta diferença para o que aconteceu com as medidas preventivas de distanciamento social e com a prescrição da hidroxicloroquina: o início dos estudos em seres humanos para testar, no Brasil, a eficácia de duas vacinas promissoras contra a covid-19 parece estar ocorrendo livre do efeito nefasto da politização da ciência.

O governador de São Paulo, João Doria, anunciou para o dia 20 deste mês o início dos testes com a vacina Coronavac, desenvolvida por um laboratório chinês. Os testes com "vacina chinesa" foram autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na sexta-feira (3) a pedido do Instituto Butantan, em São Paulo.

Disse Doria: "Torcemos também para que a vacina de Oxford produza resultado e possa ser produzida para termos duas vacinas em condição de imunização de milhões de brasileiros."

A "vacina de Oxford" a que ele se referiu é a ChAdOx1 nCoV-19, que ganhou o apelido mais legível no Brasil por ter sido desenvolvida por um consórcio formado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, e pelo laboratório AstraZeneca. Os testes com voluntários brasileiros começaram no mês passado com coordenação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e com apoio da Fundação Lemann.

Se a "vacina chinesa" se provar eficaz, será produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, graças ao acordo assinado pelo estado de São Paulo com o laboratório. Se, por sua vez, a "vacina de Oxford" for capaz de imunizar contra o novo coronavírus, a compra das primeiras doses para a população já foram garantidas pelo governo federal, num acordo que também prevê a transferência de tecnologia para produção da vacina no Brasil, pela Fiocruz.

Que as duas vacinas se mostrem eficazes — ou mesmo apenas uma delas, qualquer uma — é só o que se pode querer nesse momento em que o país já acumula mais de 64.000 mortos por covid-19 e em que, apesar da lenta desaceleração no número de novos casos, ainda não se vislumbra o fim da pandemia.

Apesar das provocações iniciais vindas das hostes bolsonaristas — para as quais colaboraram o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, e o presidente do PTB, Roberto Jefferson, que procuraram fazer ilações conspiratórias sobre a origem chinesa da vacina que será testada pelo Instituto Butantan — as tentativas de polarização ou politização, nesse caso, deram com os burros n'água.

Pode ter ajudado o fato de o presidente Jair Bolsonaro ter dado uma pausa nas declarações polêmicas e no estilo confrontador nas últimas semanas.

Que continue assim e os cientistas possam fazer seu trabalho em paz. O sucesso deles interessa a todos. As interferências políticas ou os anúncios milagrosos antes da hora, não.

Diogo Schelp