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Diogo Schelp

Veneno na cueca: a mais nova técnica russa para matar opositores

Alexei Navalny em foto postada em seu Instagram. O opositor russo deixou o hospital onde estava internado em Berlim - Instagram/AFP
Alexei Navalny em foto postada em seu Instagram. O opositor russo deixou o hospital onde estava internado em Berlim Imagem: Instagram/AFP
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

21/12/2020 10h28Atualizada em 21/12/2020 12h26

Segundo um agente que participou da operação, o opositor Alexei Navalny foi envenenado em agosto deste ano com Novichok, uma substância neurotóxica, que havia sido aplicada em sua cueca por esquadrão secreto do governo de Vladimir Putin. Navalny quase morreu com a tentativa de assassinato político e ainda se recupera das sequelas em um local não informado na Alemanha.

Os detalhes sobre como o Kremlin tentou eliminar o opositor foram dados por um dos agentes envolvidos na operação ao próprio Navalny, que ligou para ele fazendo-se passar por um funcionário de alto escalão do Conselho Nacional de Segurança da Rússia. A conversa foi gravada por assessores de Navalny, que também manipularam o número da chamada para fazer parecer que havia sido feita de dentro da sede do serviço de inteligência russo.

Ludibriado pela pessoa que ele próprio tinha ajudado a envenenar, o agente Konstantin Kudryavtsev descreveu ao longo de uma conversa de 45 minutos como a operação transcorreu, tentando justificar para o falso chefe por quê ele e sua equipe haviam falhado na missão.

"Colocamos até uma dose extra (do veneno)", disse Kudryavtsev. Ele não esteve envolvido diretamente na tarefa de colocar Novichok na cueca de Navalny, mas participou da operação de limpeza do quarto onde o opositor estava hospedado, em uma cidade na Sibéria, para eliminar traços do veneno.

Navalny passou mal no voo para Moscou e foi salvo apenas porque o piloto resolveu pousar em uma cidade mais próxima para que ele recebesse atendimento médico urgente. Os especialistas dizem que, se só tivesse recebido socorro ao chegar à capital russa, Navalny teria morrido.

O próprio Kudryavtsev disse a Navalny na conversa telefônica armada pelo opositor: "Se não tivessem pousado o avião o resultado teria sido diferente. Acho que o (pouso do) avião foi decisivo. A gente não esperava que isso acontecesse. As coisas certamente deram errado."

Segundo a CNN, Kudryavtsev é formado pela Academia Russa de Defesa Química e trabalhou no centro de pesquisa de segurança biológica do Ministério da Defesa.

O presidente russo Vladimir Putin disse, na semana passada, que se seu governo quisesse matar Navalny, ele já estaria morto. Putin, que é um ex-espião da KGB, agência de inteligência soviética que se notabilizou na arte de assassinar inimigos sem deixar vestígios, deve realmente estar muito insatisfeito com o desempenho dos agentes da FSB, órgão que substituiu o antigo serviço secreto.

A FSB é acusada por governos europeus de ter dado continuidade à tradição de envenenar opositores, inclusive fora das fronteiras russas. Em 2006, por exemplo, o ex-espião da KGB Alexander Litvinenko, que vivia exilado na Inglaterra, foi envenenado com polônio-210, uma substância radioativa adicionada em seu chá.

Em 2004, durante as eleições presidenciais na Ucrânia, o ex-presidente Viktor Yushchenko, crítico do governo russo, foi envenenado com dioxina. Ele não morreu, mas ficou com o rosto desfigurado.

Casos como esses lembram o assassinato do búlgaro Georgi Markov, quando ele atravessava uma ponte em Londres, em 1978. Um homem, possivelmente um agente russo, espetou Markov na perna com a ponta de um guarda-chuva envenenada com ricina.

A unidade de envenenamento do governo russo, formada por até dez agentes secretos, foi revelada na semana passada em reportagem conjunta da CNN, da revista alemã Der Spiegel e do site de investigações Bellingcat. As novas revelações também foram publicadas pela CNN e pela Spiegel.