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Diogo Schelp

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Cúpula bolsonarista faz 30% dos tuítes que promovem teoria conspiratória

Ernesto Araújo e Eduardo Bolsonaro - MARCELO CAMARGO/AG. BRASIL
Ernesto Araújo e Eduardo Bolsonaro Imagem: MARCELO CAMARGO/AG. BRASIL
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

04/02/2021 15h13

A influência das teorias conspiratórias e da identidade conservadora na política externa são os temas de dois artigos ainda inéditos produzidos por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). No primeiro caso, concluiu-se que a narrativa conspiracionista está moldando a postura do Brasil diante do mundo como nunca antes na história da nossa diplomacia. No segundo, que a identidade conservadora da diplomacia bolsonarista revela-se mais densa nas relações com governos ideologicamente similares, mas dilui-se nas interações com países de linhas rivais.

O estudo sobre as teorias conspiratórias na política externa bolsonarista elenca os maiores propagadores dessas ideias nas redes sociais e em discursos.

Essas teorias conspiratórias giram em torno do conceito de "globalismo", definido como a narrativa de que existe "uma série de tramas criadas por agências internacionais e governos de esquerda para impor o 'marxismo cultural' por meio da lei internacional contra a vontade do 'povo verdadeiro', que se caracteriza por ser nacionalista, anticomunista e pró-valores cristãos".

Para desenvolver uma teoria conspiratória, é preciso criar um inimigo imaginário que possui um plano maquiavélico e uma estratégia para mantê-lo em segredo.

No caso da teoria do globalismo, os principais inimigos ou conspiradores são os burocratas internacionais e a China. O plano deles seria a imposição da lei internacional e do "marxismo cultural" contra o desejo do "povo verdadeiro".

Com base em um levantamento exaustivo que analisou 705 discursos, entrevistas e vídeos do YouTube do presidente Jair Bolsonaro, do chanceler Ernesto Araújo, do assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Filipe Martins, do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), e de Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, além de 1,1 milhão de postagens no Twitter que continham a palavra-chave "globalismo", associado às teorias conspiratórias, foi possível identificar os principais arquitetos e propagadores dessas narrativas em política externa.

Os pesquisadores encontraram nos discursos, entrevistas e vídeos com temática internacional os integrantes do governos que mais contribuem para a construção da narrativa conspiracionista.

Sem surpresa alguma, são eles Ernesto Araújo, Filipe Martins e Eduardo Bolsonaro, a tríade da formulação da política externa bolsonarista. Os três usam com frequência as expressões "globalismo", "instituições internacionais", "China" e "marxismo", geralmente combinando as quatro em falas de alto teor conspiracionista.

A expressão favorita de Araújo é "instituições internacionais", que aparece em quase 40% dos parágrafos de suas falas. Filipe Martins prefere "globalismo", encontrado em 47% dos parágrados. Eduardo Bolsonaro usa com igual eloquência o termo "globalismo" e "marxismo" em contextos conspiracionistas. Ambas as expressões aparecem em cerca de 58% dos parágrafos analisados.

No Twitter, os pesquisadores separaram as postagens com menções à teoria conspiratória do globalismo que tiveram maior engajamento. Por esse critério, entre os 30 maiores difusores das ideias conspiracionistas, nove são políticos ou funcionários públicos bolsonaristas e integrantes ou ex-integrantes do governo federal.

São eles, na ordem de influência na divulgação de teorias conspiratórias, Arthur Weintraub (ex-assessor da Presidência, depois indicado por Bolsonaro para um cargo na Organização dos Estados Americanos), Felipe Pedri (secretário de Comunicação Institucional do governo), Roberto Jefferson (presidente nacional do PTB), Ernesto Araújo, Ludmila Grillo (juíza), Daniel Silveira (deputado federal), Eduardo Bolsonaro, Filipe Martins e Carlos Jordy (deputado federal).

Entre dezembro de 2019 e julho de 2020, os integrantes desse grupo foram responsáveis por 30% das postagens com conteúdos que faziam referência à teoria conspiratória do globalismo.

A narrativa de conspiração internacional propagada por eles foi reforçada e amplificada por 21 perfis de influenciadores digitais. Nessa categoria, os autores da maior quantidade de postagens com teor conspiracionista e elevado engajamento foram Dom Esdras (perfil anônimo), Rodrigo Constantino, Allan dos Santos, Paulo Eneas e Jornal Brasil Sem Medo.

O artigo acadêmico que apresenta esses resultados, com o título When Conspiracy Theories Capture Foreign Policy Narratives: Jair Bolsonaro's 'Globalist' Conspiracy in International Relations ("Quando teorias da conspiração capturam as narrativas de política externa: a conspiração 'globalista' de Jair Bolsonaro nas relações internacionais"), é assinado pelos pesquisadores Feliciano de Sá Guimarães, Irma Dutra de Oliveira e Silva e Anna Carolina Raposo de Mello, do Instituto de Relações Internacionais da USP, e por Davi Moreira, da FGV-SP.

As teorias conspiratórias associadas à ideia da existência de uma ideologia "globalista", que supostamente pretende impor o "marxismo cultural" às nações em detrimento de valores ocidentais, cristãos e nacionalistas, fazem parte do tripé que sustenta a identidade conservadora da política externa bolsonarista.

Esse tripé é formado por concepções da identidade nacional que estão relacionadas: a identidade antiglobalista, a identidade nacionalista e a identidade anti-inimigos. Os inimigos imaginários preferidos da política externa brasileira são a China e os burocratas internacionais.

A maneira como essas identidades são utilizadas nas relações do Brasil com outros países é analisada no artigo Far-right populism and foreign policy identity: Jair Bolsonaro's ultra-conservatism and the new politics of alignment ("Populismo de extrema direita e a identidade em política externa: o ultra-conservadorismo de Jair Bolsonaro e a nova política de alinhamento"), que será publicado em março na International Affairs, uma das revistas mais prestigiosas em relações internacionais. Os autores são Feliciano de Sá Guimarães e Irma Dutra, do IRI-USP.

Ao analisar as relações no Brasil sob a gestão Bolsonaro com os Estados Unidos do ex-presidente Donald Trump e com a China de Xi Jinping, os autores encontraram uma diferença de abordagem em relação ao uso das três concepções de identidade conservadora. Com os Estados Unidos de Trump, a abordagem era a de usar o pacote completo da identidade conservadora (antiglobalismo, nacionalismo e anti-inimigo). É o que os pesquisadores chamam de "identidade conservadora densa".

Com a China, porém, a política externa bolsonarista oscilou entre momentos de tensão e momentos de aproximação, em especial no episódio em que o Brasil se viu sob pressão dos países europeus por sua política ambiental. A China defendeu a soberania do Brasil na ocasião, como uma forma de reforçar sua própria preocupação com interferências em assuntos internos de interesse nacionalista.

Nesse ponto, a política externa brasileira encontrou um ponto em comum com os chineses (a preocupação com a identidade nacionalista), ainda que a China continuasse sendo seu maior antagonista nos outros dois pilares identitários: o antiglobalismo e o anti-inimigo.

Essa abordagem da política externa bolsonarista em relação à China é o que os pesquisadores chamaram de "identidade conservadora branda".

O professor de relações internacionais Feliciano de Sá Guimarães, do IRI-USP, um dos autores dos dois estudos, diz que a recente crise dos insumos para vacinas que ficaram retidas na China é um desses episódios em que a abordagem "branda" fica evidente.

"O governo brasileiro fez um recuo tático, mas podemos ter certeza que, quando a situação se normalizar e o Brasil não depender mais dos insumos chineses para obter vacinas para a população, os ataques à China vão ser retomados", diz Guimarães.

Isso é inevitável porque a China é peça central na narrativa de antiglobalismo da política externa do governo Bolsonaro. Como observa Guimarães, "essa teoria conspiratória é além de tudo incoerente, porque gera muitos inimigos imaginários para um país, o Brasil, que não possui inimigos geopolíticos e estratégicos reais."