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Diogo Schelp

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Discurso de inocência sobressai como o negacionismo de Lula

SP - LAVA JATO/LULA/COLETIVA - POLÍTICA - O ex- presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante coletiva de imprensa realizada   na sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista,   nesta quarta-feira, 10 de março de 2021 - ANDRé PERA/PERA PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
SP - LAVA JATO/LULA/COLETIVA - POLÍTICA - O ex- presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante coletiva de imprensa realizada na sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, nesta quarta-feira, 10 de março de 2021 Imagem: ANDRé PERA/PERA PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

10/03/2021 15h03

"Lula Livre" não é a mesma coisa que "Lula Inocente".

Ao contrário do que disse Lula em seu discurso no sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo, nesta quarta-feira (10), o ministro Edson Fachin, do STF, não o absolveu ao determinar a anulação das condenações que ocorreram na Justiça Federal em Curitiba (PR).

Lula afirmou que Fachin, a quem agradeceu pela decisão tardia, "reconheceu que nunca teve crime cometido por mim". Errado.

Na realidade, Fachin decidiu que os quatro processos que imputaram crimes a Lula não eram de competência da vara de Curitiba, onde atuava o ex-juiz Sergio Moro, e por isso devem começar do zero no Distrito Federal. Mas Fachin não julgou o mérito das acusações e nem anulou as provas.

Lula disse que foi "vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história" do Brasil. A frase remete ao bordão conhecido em seu período na presidência: "nunca antes na história desse país".

Essa postura de quem acredita que nada do que foi feito antes no Brasil tinha qualquer valor, como se a nossa história tivesse começado com a chegada de Lula ao poder, nos faz lembrar que foi justamente a empáfia política que permitiu o ambiente de certeza da impunidade que resultou no petrolão e em outros escândalos de corrupção de grandes proporções nos governos do PT.

Lula falou como candidato, apesar de não se apresentar como tal. "Me sinto jovem para brigar muito", disse ele.

Prova desse posicionamento no tabuleiro para 2022 é o fato de que ele gastou mais palavras para criticar o governo Bolsonaro do que para comemorar a decisão do STF que o favoreceu.

Muitas de suas críticas, aliás, estão corretas, em especial no que diz respeito à gestão desastrosa de Bolsonaro e de seu ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na pandemia.

Lula fez o que Bolsonaro demonstrou ser incapaz de fazer: apresentar solidariedade às vítimas da covid-19 e aos profissionais de saúde e reconhecer o empenho de governadores em tentar controlar o avanço do novo coronavírus.

E ao criticar Bolsonaro nesse tema, tratou de espezinhá-lo, praticamente chamando-o de terraplanista, ou seja, alguém que acredita que a terra é plana e, portanto, refuta o conhecimento científico.

Nada de surpreendente aqui. O desastre pandêmico de Bolsonaro é o ponto mais vulnerável de seu governo (e o que não faltam são pontos vulneráveis).

Qualquer um que almeje disputar as eleições presidenciais do ano que vem terá que cutucar essa ferida. Os demais potenciais candidatos, de João Doria a Ciro Gomes, de Sergio Moro a Flavio Dino, de Luciano Huck a Luiz Henrique Mandetta, já o fazem.

Mas se o governo Bolsonaro nega os fatos relacionados à pandemia, Lula exerce outra forma de negacionismo: a recusa em admitir que a sua história pessoal e a de seu partido estão irremediavelmente ligadas a escândalos de corrupção.

Como realçou o relator dos processos da Lava Jato no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, João Pedro Gebran Neto, as condenações de Lula que foram confirmadas nessa corte de segundo instância foram julgadas "com dedicação, cuidadoso estudo dos autos, acurado exame das provas licitamente obtidas, apreciação dos fatos imputados e dos direitos reivindicados pelas partes".

O papel de mártir rende bem politicamente. Mas Lula Livre não é sinônimo de Lula Inocente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL