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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Guerra de narrativas sobre pandemia será transferida das redes para a CPI

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), durante a sessão de abertura da CPI da Covid  - Jefferson Rudy/Agência Senado
O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), durante a sessão de abertura da CPI da Covid Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

13/04/2021 20h08

A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da covid-19 no Senado — seja remota ou semipresencial, seja agora ou mais para frente, seja restrita ao governo federal ou ampliada para governadores e prefeitos — terá como efeito transferir a guerra de narrativas sobre a pandemia das redes sociais, onde não se chega a conclusão alguma, para as mãos de um grupo de senadores investidos com capacidade de investigação equivalentes ao de uma autoridade judicial.

Depoimentos poderão ser convocados, documentos confidenciais, requisitados, e sigilos bancários, quebrados.

O governo de Jair Bolsonaro, por meio da tropa de choque de senadores que serão indicados por sua base de apoio para compor a comissão, de tudo fará para, claro, primeiro, omitir os próprios erros e omissões, segundo, transferir responsabilidades para governadores e prefeitos, de preferência os que forem adversários políticos, e terceiro, repisar e replicar as crendices que embasam a postura de negligência do governo diante da pandemia.

Ou seja, quando o assunto forem medidas sanitárias que deixaram de ser adotadas em nível nacional, o discurso será o de que STF deu essa atribuição a estados e municípios e amarrou as mãos da União; quando o assunto forem os gastos milionários com dinheiro público para distribuição e a pressão para a prescrição de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19, o argumento será o de que mal não fez e que o Conselho Federal de Medicina (CFM) deu o seu (torto e interesseiro) endosso; quando o assunto for o boicote federal às vacinas, a justificativa será o contrário, de que não havia eficácia comprovada nos imunizantes ofertados e que desde sempre as compras estavam condicionadas à aprovação da Anvisa; quando inquiridos sobre aglomerações causadas por um presidente que sequer se dignava a usar máscaras, seus defensores na CPI dirão que as multidões se formaram espontaneamente graças à sua "grande popularidade" e que ele não temia a doença.

Enfim, haverá uma sequência de afirmações e argumentações feitas para confundir, desinformar, omitir e desviar-se do propósito investigativo.

Trata-se de um jogo que vai replicar o debate inócuo que ocorre nas redes sociais.

A diferença é que, com os instrumentos de uma CPI, será possível trazer fatos concretos à luz. Se bem analisados — e a sociedade poderá acompanhar isso de perto —, poderão levar a conclusões que nenhuma narrativa oca, sem embasamento, poderá derrotar. Reside aí o medo que Bolsonaro tem dessa CPI.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL