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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Céticos da vacina nos EUA expõem limites ao controle da pandemia

Joe Biden recebe vacina contra covid-19 - Getty Images
Joe Biden recebe vacina contra covid-19 Imagem: Getty Images
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

18/06/2021 16h40

Com a corrida de governadores e prefeitos para anunciar a antecipação do calendário por faixa etária, surge a esperança de que a vacinação em massa possa ser atingida em todo o Brasil já em meados do segundo semestre — e que em breve as pessoas possam retornar gradualmente a uma rotina normal. Mas o exemplo dos Estados Unidos demonstra que há uma barreira para se atingir a imunidade coletiva: a recusa de uma parte da população em se vacinar.

Em maio, o presidente americano Joe Biden estabeleceu como meta imunizar 70% dos adultos do país até o dia 4 de julho, data em que o país comemora sua Independência. Diversos estudos indicam que o controle da pandemia — ou seja, a interrupção ou a redução drástica da transmissão comunitária — poderia ser atingido com algo entre 70% e 80% de toda a população vacinada.

Há várias semanas já não existem mais restrições para isso, do ponto de vista da quantidade de doses disponíveis. Os Estados Unidos têm vacina para todos os seus cidadãos.

Ainda assim, falta vacinar 13,6 milhões de pessoas em pouco mais de duas semanas para atingir a meta estabelecida por Biden.

Segundo o dado mais recente, 65% dos adultos americanos tomaram pelo menos uma dose de vacina contra covid-19. Mas a proporção de doses aplicadas diariamente no país, atualmente, é menos da metade da que se atingiu em meados de março.

Nos últimos sete dias, a média nos Estados Unidos foi de 0,4 dose aplicada por 100 habitantes, enquanto no Brasil registra-se a aplicação de 0,55 dose por 100 habitantes.

O ritmo da vacinação nos Estados Unidos diminuiu em grande medida porque apenas uma pequena parcela dos cidadãos que ainda não se vacinou pretende fazê-lo.

É o que mostra uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira pela Associated Press-NORC Center for Public Affairs. Segundo o levantamento, dos adultos que ainda não se vacinaram, 46% afirmam que de jeito nenhum vão tomar a injeção e 29% dizem que provavelmente não vão se imunizar.

No total, isso equivale a dizer que um quarto de toda a população adulta dos Estados Unidos hesita em tomar a vacina. No grupo dos resistentes à vacina predominam jovens adultos, pessoas sem nível superior, evangélicos brancos, trabalhadores do campo e republicanos.

Por outro lado, apenas 25% dos americanos que ainda não se vacinaram têm a intenção de fazê-lo.

Com o nível mais baixo de mortes por covid em proporção à população desde março do ano passado, os estados americanos estão eliminando restrições sociais e econômicas e a obrigação do uso de máscara e as pessoas estão gradualmente retomando hábitos de antes da pandemia.

Segundo a pesquisa, mais de 75% dos americanos estão voltando a frequentar bares e restaurantes e 55% estão retomando as viagens.

Para que se possa ter o coronavírus sob controle, no entanto, as autoridades americanas consideram que é preciso avançar ainda mais na vacinação, vencendo as resistências.

Nas últimas semanas, o governo fez parcerias com empresas para dar incentivos a quem comparecer aos postos de vacinação.

O exemplo dos Estados Unidos vale como lição para o Brasil. Depois da corrida para conseguir doses suficientes para toda a população, será preciso suar para a vencer a resistência dos céticos da vacina.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL