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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Cuba esnobou consórcio de vacina da OMS, como Bolsonaro, e não voltou atrás

11.jul.2021 - Pessoas gritam frases contra o governo durante um protesto, em meio ao surto do coronavírus, em Havana, Cuba - REUTERS / Alexandre Meneghini
11.jul.2021 - Pessoas gritam frases contra o governo durante um protesto, em meio ao surto do coronavírus, em Havana, Cuba Imagem: REUTERS / Alexandre Meneghini
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

14/07/2021 16h12

Existe uma parte da esquerda brasileira que se encanta com a imagem de "revolucionários de boina" em ditaduras caribenhas, enquanto afirma defender a democracia no Brasil a qualquer custo. De duas, uma: ou o discurso antiautoritário não é sincero, e seus integrantes instalariam por aqui a própria tirania, se pudessem; ou acham bonito ditadura no país dos outros, para poder seguir se iludindo com uma utopia fracassada sem precisar sofrer suas consequências na pele.

Enquadram-se nesse escaninho da esquerda nacional figuras como o ex-presidente e novamente presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o psolista Guilherme Boulos. Sobre os protestos que ocorrem desde domingo (11) em Cuba contra a ditadura comunista, o primeiro disse que eram apenas "passeatas" e que era tudo culpa do embargo econômico dos Estados Unidos à ilha, enquanto o segundo afirmou que o país era um exemplo no combate à pandemia.

Ambos estão errados e isso enfraquece qualquer discurso que eles adotam ou venham a adotar em relação ao viés autoritário e antidemocrático — que de fato existe — do nosso próprio presidente.

Os protestos em Cuba não têm nada a ver com o embargo americano. Cuba não tem acesso ao mercado dos Estados Unidos, mas pode fazer negócios com boa parte do resto do mundo.

A falência da economia cubana é crônica e tem a ver com um sistema econômico em que liberdade é um conceito esvaziado de sentido. O Estado detém o monopólio da economia. Os cidadãos passaram a poder exercer algumas poucas atividades remuneradas autônomas há poucos anos, como servir comida em casa para clientes ou cortar o cabelo dos vizinhos no quintal.

Os protestos em Cuba têm a ver com um anseio por liberdade verdadeira — econômica e política. É isso que está nas palavras de ordem dos manifestantes, que estão sendo brutalmente reprimidos pela polícia e por integrantes dos Comitês de Defesa da Revolução, as milícias de bairro.

O catalisador das manifestações, claro, é a pandemia do novo coronavírus, que se agravou desde o final do ano passado, quando o país foi reaberto para o turismo.

Os dados de óbitos e novos casos são maquiados, como revelam diversos relatos feitos por cubanos cujos familiares morreram em casa, sem atendimento médico e sem fazer qualquer teste. Os óbitos são registrados como sendo por outras causas naturais.

É o inverso do que o presidente Jair Bolsonaro diz que ocorre no Brasil. Aqui, ele afirma que as pessoas morrem por outras causas e são registradas como vítimas de covid-19 (o que é mentira). Em Cuba, as autoridades dizem que pacientes de covid-19 faleceram por outros motivos (o que também não é verdade).

Ditadores ou projetos de ditadores têm sempre problemas sérios com estatísticas confiáveis. Eles também têm dificuldades em admitir quando uma política pública é equivocada.

No Brasil, um dos questionamentos que os senadores de oposição fazem seguidamente na CPI da Covid, com razão, é a respeito da demora do governo Jair Bolsonaro em aderir ao consórcio Covax Facility, gerido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para prover países de renda média e baixa com vacinas contra covid-19.

O governo Bolsonaro recusou as primeiras ofertas para aderir ao consórcio, feitas no primeiro semestre de 2020. Só fechou o acordo de última hora. Quando o fez, em setembro, ainda assim optou por contratar a quantidade mínima, suficiente para atender 10% da população, quando poderia ter optado por contratar vacinas para 50% da população, como revelou o colunista do UOL Jamil Chade.

O ex-chanceler Ernesto Araújo disse em depoimento à CPI que a decisão de optar pela menor quota foi do Ministério da Saúde — que ademais a essa altura também estava negligenciando outros contratos com fornecedores de vacinas.

O governo cubano também esnobou o Covax Facility — e nunca voltou atrás nessa decisão. Em vez de garantir a imunização da sua população com vacinas com melhores chances de eficácia e sucesso, preferiu fazer de seus próprios cidadãos cobaias de produtos desenvolvidos localmente.

O ditador Miguel Díaz-Canel queria usar os imunizantes nacionais Abdala e Soberana 2 para fazer propaganda do regime fora do país. A primeira começou a ser aplicada na população sem a divulgação dos resultados de fase 3 e a segunda, sem sequer a conclusão dos ensaios de fases 1 e 2.

De resto, o sistema de saúde, sempre tão enaltecido como modelo por uma parcela da esquerda brasileira, teve sua fragilidade exposta pela pandemia. Faltam remédios básicos, como antibióticos — e não por culpa do embargo, que não abrange alimentos e medicamentos. Também faltam médicos, em parte porque a ditadura prefere exportá-los em missões mundo afora como fonte de divisas para o regime, atuando em programas como o Mais Médicos no Brasil e com a maior parte do salário confiscada pelo regime.

Ditaduras não são fofas nem aqui, nem no país dos outros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL