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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ala fisiológica no governo substitui a ideológica e avança sobre a militar

Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

27/07/2021 16h37

O presidente Jair Bolsonaro apresentou-se na campanha de 2018 com uma pauta conservadora nos costumes e liberal na economia, mas foi eleito mesmo com o discurso do antipetismo, da antipolítica e do combate à corrupção.

Para esse discurso ter credibilidade (até porque seu histórico como deputado federal apontava em outra direção), Bolsonaro precisava criticar o centrão, que havia sido o fiel da balança em todos os governos anteriores do período democrático.

O centrão é aquele bloco de partidos com presença marcante no Congresso Nacional que se caracterizam por não ter orientação ideológica bem definida e por conceder apoio ao governante de ocasião em troca de cargos e emendas do orçamento.

Em 2018, o atual ministro do Gabinete da Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, em evento que oficializou a candidatura de Bolsonaro, cantou: "Se gritar 'pega centrão', não fica um, meu irmão."

O próprio Bolsonaro disse em vídeo de 2018 que não colocaria gente do centrão no seu gabinete ministerial.

Queimou a língua, assim como agora também queima a língua o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que depois de chamar Bolsonaro de fascista em 2017 e de apoiar o petista Fernando Haddad para a presidência em 2018 acaba de aceitar o convite para ocupar o poderoso cargo de ministro da Casa Civil.

Cacique do PP, partido também do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (AL), e do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PR), Ciro Nogueira é um dos líderes do centrão no Senado.

Seu embarque no gabinete ministerial de Bolsonaro serve ao propósito de consolidar a aliança do governo com o centrão.

Com popularidade em baixa e acuado pela CPI da Covid no Senado, que escancarou a desastrosa gestão federal da pandemia e estranhíssimas negociações por vacina, Bolsonaro joga no modo sobrevivência — o que, no seu caso, equivale a dizer que praticamente não consegue avançar nas fases do game de governar.

Para ganhar mais vidas nesse jogo, Bolsonaro foi obrigado a entregar a ala ideológica do seu governo e ceder espaço para o centrão, que podemos chamar de ala fisiológica.

Na ala ideológica, sobrou apenas Damares Alves, do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

O centrão, que com a chegada de Ciro Nogueira conquista seu terceiro ministério (além de Casa Civil, os ministérios da Cidadania e a Secretaria de Governo), agora disputa ombro a ombro espaço com a ala militar, ainda mais numerosa, com o controle de sete ministérios.

Há quem não considere Fábio Faria (PSD), do Ministério das Comunicações, um integrante do centrão, mas dada a possibilidade de ele se filiar ao PP, pode também ser incluído na conta.

A chamada ala técnica, composta por ministros com afinidade com os temas de suas pastas, como Teresa Cristina, da Agricultura, e Paulo Guedes, da Economia, vem perdendo cada vez mais prestígio e influência.

Guedes, por exemplo, está assistindo ao fatiamento de sua pasta para acomodar o centrão no governo e vem se conformando com o esvaziamento da agenda liberal, ainda mais com a proximidade das eleições.

Despido da agenda e do discurso que o elegeram em 2018, restou o Bolsonaro como ele verdadeiramente é e sempre foi: um político das velhas práticas do centrão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL