PUBLICIDADE
Topo

Diogo Schelp

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Falso recuo não apaga golpismo impregnado em muitos brasileiros

Na véspera do 7/9, manifestantes carregam faixa pedindo que Bolsonaro use Forças Armadas para intervir no Judiciário e Legislativo - Cláudio Marques/Futura Press/Estadão Conteúdo
Na véspera do 7/9, manifestantes carregam faixa pedindo que Bolsonaro use Forças Armadas para intervir no Judiciário e Legislativo Imagem: Cláudio Marques/Futura Press/Estadão Conteúdo
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

11/09/2021 15h16

Só os incautos acreditam que há sinceridade no recuo de Jair Bolsonaro às suas falas golpistas de 7 de setembro, quando ameaçou desobedecer decisões judiciais e desrespeitar o resultado das eleições do ano que vem. Ele já fez recuos antes, apenas para voltar à carga em seguida, sempre um tom acima.

Mesmo que Bolsonaro se mantenha domesticado por mais tempo dessa vez, o fato é que em pelo menos um aspecto o estrago já está feito.

Não importa o que o presidente faça a partir de agora, nada vai anular o fato espantoso — escancarado pelos atos de 7 de setembro — de que uma parcela significativamente dos brasileiros, ainda que minoritária, absorveu e expressa sem constrangimentos valores golpistas, antidemocráticos.

Isso é obra do bolsonarismo.

Em 2016, participei da cobertura jornalística de uma manifestação na Av. Paulista, em São Paulo, que pressionava pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Como se sabe, muitos dos que naquela ocasião protestavam de verde e amarelo dois anos depois ajudaram a eleger Bolsonaro presidente.

Em frente ao Parque Trianon estava estacionado um caminhão de som com uma faixa pedindo intervenção militar. Como o caminhão estava cercado pela multidão, podia-se ter a impressão de que o apoio à agenda do fechamento do Congresso Nacional e da volta da ditadura militar era uma das marcas da manifestação como um todo. Não era.

O fotógrafo André Liohn e eu perguntamos às pessoas que estavam no asfalto, mais próximas ao caminhão, e que assistiam aos discursos e palavras de ordem que saiam das caixas de som, se concordavam com a intervenção militar.

Descobrimos que apenas a primeira fileira de manifestantes em volta do caminhão era da turma golpista. Umas 30 pessoas, no máximo. As de trás diziam-se categoricamente contra qualquer ruptura institucional. Apenas assistiam às bravatas intervencionistas por curiosidade, como quem observa um animal exótico no zoológico.

Subimos no caminhão e conversamos com um cidadão de meia-idade, calça camuflada, jaqueta de motoqueiro e bandana com as cores do Brasil na cabeça. Ele disse que um grupo de empresários havia alugado o caminhão com dinheiro do próprio bolso. Queriam a volta da ditadura porque "naquele tempo não havia corrupção e tanta insegurança".

Pela idade, o sujeito era criança quando a ditadura acabou. Tampouco tinha feito carreira militar. A admiração pela caserna e a estética bélica eram típicas de quem é fã de filmes de ação ou de guerra americanos. Uma figura que exalava decadência visual e moral.

O que se viu no último dia 7 de setembro é algo muito diferente. Ficou claro que a agenda golpista foi absorvida por uma parcela numerosa da população. Fechar o Supremo Tribunal Federal (STF) ou destituir e substituir seus ministros, intervir no Congresso e convocar as Forças Armadas para dar um jeito no país tornaram-se reivindicações banais, praticamente a regra, nos atos bolsonaristas.

Essa agenda antidemocrática, evidentemente, não foi incorporada do dia para a noite pelos apoiadores do presidente. Isso ocorreu com mais intensidade ao longo dos últimos três anos, desde a eleição de 2018, e só foi possível porque Bolsonaro normalizou a retórica golpista, desgastando os freios morais e sociais que antes continham os anseios autoritários de uma parcela da população.

A absorção da agenda golpista foi facilitada por uma narrativa, elaborada pelos ideólogos do bolsonarismo e amplificada por seus influenciadores extremistas nas redes sociais, de que intervenção militar, destituição de ministros do STF e a contestação do sistema eleitoral não são medidas autoritárias, mas, sim, necessárias para salvar a "verdadeira" democracia e garantir a liberdade que os "comunistas" querem tirar dos conservadores.

Uma baboseira sem tamanho, mas na qual muita gente está disposta a acreditar.

Bolsonaro pode agredir as instituições e depois recuar o quanto quiser. Pode até sofrer impeachment, ser extirpado da vida política por oito anos e acabar preso por um dos muitos crimes que cometeu em seu governo.

Mas a retórica golpista que ele ajudou a impregnar na sociedade brasileira é um dano que não se conseguirá reparar tão cedo e tão fácil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL