PUBLICIDADE
Topo

Diogo Schelp

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tratamento precoce e comunismo: o mundo paralelo de Bolsonaro na ONU

Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

21/09/2021 11h36

Para surpresa de ninguém, o presidente Jair Bolsonaro fez um discurso calculado para agradar sua base doméstica de apoiadores mais fieis na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, descrevendo uma realidade ilusória a respeito do Brasil e do seu governo e insistindo em questões há tempos superadas pelo restante do mundo.

Bolsonaro começou dizendo que apresentaria ao mundo um Brasil diferente do que a imprensa retrata. Diferente, mas não verdadeiro.

Afirmou que, quando assumiu o governo, o país estava à beira do socialismo. Trata-se de uma alucinação de Bolsonaro: ele sucedeu o presidente Michel Temer (MDB), que em seu curto período no poder aplicou uma política econômica ortodoxa e, na política externa, afastou-se da Venezuela.

Bolsonaro também disse que seu governo não teve qualquer caso concreto de corrupção, algo que é facilmente desmentido pelas descobertas feitas pela CPI da Covid. Além disso, o comportamento ético da família Bolsonaro é colocado em xeque pelo histórico de desvio de dinheiro público por meio do salário de assessores e compras de imóveis em dinheiro vivo.

Bolsonaro falou em investimentos, em parcerias com o setor privado e em saneamento básicos. Tentou fazer crer que o país consegue se mostrar atrativo para investidores, apesar da instabilidade política criada por ele próprio e que tem o efeito contrário, de afugentar os dólares.

Na questão ambiental, pinçou a dedo um dado isolado de agosto para provar que o desmatamento na Amazônia caiu significativamente, em vez de usar a informação mais completa do período de 12 meses.

Mas as maiores falácias apareceram no trecho dedicado à pandemia de covid-19. Bolsonaro afirmou, repetindo o que já disse antes em discursos na ONU, que, por decisão judicial, seu governo foi impedido de influenciar nas medidas sanitárias e que os governadores são culpados pelo desemprego no país, por terem instituído o lockdown.

Vangloriou-se de ter defendido a vacinação em massa e de ter investido em vacinas, quando se sabe que isso aconteceu a contragosto e tardiamente. Ao longo de 2020, aliás, o seu governo atuou contra a compra de outras vacinas além da Astrazeneca/Oxford.

Nada, porém, foi mais vergonhoso do que a defesa que Bolsonaro fez do chamado "tratamento precoce" contra covid-19, algo que a comunidade científica internacional já reconhece não existir há mais de um ano.

"Não entendemos por que muitos países, juntamente com grande parte da mídia, se colocaram contra o tratamento inicial", disse Bolsonaro diante dos líderes e das delegações dos países.

A resposta, presidente, é simples: porque eles seguem a ciência, não o seu gabinete paralelo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL