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Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mais literatura, menos bolsonarismo

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Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

03/10/2021 11h08

"Os americanos, através do radar, entraram em contato com a Lua, o que não deixa de ser emocionante. Mas o fato mais importante da semana aconteceu com o meu pé de milho."

Esse é o primeiro parágrafo de uma das crônicas mais marcantes de Rubem Braga.

Eu o tenho sempre em mente ao iniciar um artigo, porque minha vontade é ignorar os assuntos do momento e falar de qualquer outra coisa que me desperte maior alegria.

Na falta de um pé, compro o milho embalado para fazer pipoca e, com ela, desfrutar filmes, séries, romances, biografias, cartas, diários. O problema é que sempre acabo relacionando todos eles à política contemporânea, porque ela soa ainda mais ridícula à luz de qualquer obra, personagem ou autor interessantes.

Por exemplo: J. D. Salinger.

Aos 22 anos, em carta a Ruth Smith Maier datilografada em 1941, ele escreveu: "Eu sou bom. Vai levar um tempo para convencer o público, mas (isso) vai acontecer."

Dez anos depois, Salinger publicou seu mais famoso livro, O apanhador no campo de centeio, que, de tão cultuado, com milhões de exemplares vendidos, levou o autor a se proteger do súbito estrelato, passando a viver recluso desde 1953, como uma espécie de Rubem Fonseca de Cornish, pequena cidade ao noroeste de New Hampshire.

Seu protagonista Holden Caulfield convenceu de tal maneira o público de seu tempo e das gerações vindouras que o escritor preferiu manter a privacidade até morrer, aos 91 anos.

"Nos meus piores momentos, anos atrás, todas as cartas endereçadas a mim eram escritas em parte ou totalmente em Holden Calfidês (sic). Era como estar no inferno", escreveu Salinger, em 1969, sobre a emulação do adolescente rebelde feita pelos fãs.

Ao buscar contato, porém, muitos leitores só estavam aplicando a tese do próprio Caulfield: "bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler fica querendo ser um grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que der vontade".

Eu, Felipe, ainda tenho vontade de telefonar ou escrever para Rubem Braga e J. D. Salinger, não apenas para perguntar sobre a atuação de ambos durante a Segunda Guerra Mundial - um como correspondente junto à Força Expedicionária Brasileira e outro como soldado americano -, mas porque aprendi com eles que a simplicidade do nosso jardim pode ser mais interessante que o espaço sideral e que realizar nossa própria vocação é mais desejável que as consequências da fama.

A primeira-dama do patrimonialismo bolsonarista, Michelle, através de telefonema seguido de e-mails de seu gabinete, entrou em contato com o presidente da Caixa Econômica Federal para liberar empréstimos a empresas amigas, o que não deixa de ser repugnante. Mas o fato mais importante da semana aconteceu nas minhas releituras de dois velhos rabugentos, quando notei que suas vidas e obras deveriam ser aplicadas desde cedo no Brasil como vacinas literárias contra o deslumbramento provinciano com o poder.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL