PUBLICIDADE
Topo

Fernanda Magnotta

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Cobranças e coalizões demarcam relação EUA-Brasil na área ambiental

John Kerry, enviado dos Estados Unidos para o clima - AFP/Embaixada dos Estados Unidos em Seul
John Kerry, enviado dos Estados Unidos para o clima Imagem: AFP/Embaixada dos Estados Unidos em Seul
Conteúdo exclusivo para assinantes
Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

05/08/2021 04h00

Há uma frase célebre atribuída ao pensador norte-americano Henry Thoreau que afirma que "a política se ocupa apenas do que é oportuno". Nos tempos que temos vivido, mais do que simplesmente cirúrgica, ela também é didática.

A política é feita de interesses, de percepções, de narrativas e de contextos. É, por definição, matéria viva e arqueável, que aceita novas circunstâncias facilmente. Ajuda a explicar, inclusive, as ambiguidades que marcam o relacionamento bilateral entre Estados Unidos e Brasil nesse momento de sua história. Se é da natureza da política se alimentar do que é dúbio, não surpreende, portanto, que o diálogo entre os dois países ocorra em meio a tantos antagonismos.

Todos temos acompanhado as pressões vindas dos Estados Unidos de Joe Biden no que diz respeito à política ambiental. Sob o lema da "economia e da diplomacia verdes", o presidente norte-americano impulsionou a agenda e transformou-a no centro das cobranças em relação ao Brasil.

Muito embora o discurso oficial das diplomacias dos dois países dê conta de garantir que as relações bilaterais são estruturalmente sólidas e que as bases da cooperação seguem inalteradas desde a transição de poder em Washington, seria ingênuo acreditar que não existam incompatibilidades e desconfianças entre o governo Biden e o governo Bolsonaro. Elas, aliás, não são pequenas nem irrelevantes.

Do lado norte-americano, por enquanto, os incômodos com a política ambiental brasileira se traduzem nas sutilezas, como na demarcação de expectativas e na busca por resultados objetivos. O que parece algo trivial no diálogo entre dois parceiros, para os fluentes em política talvez signifique mais do que isso: trata-se de uma estratégia que não apenas torna o tema artificialmente prioritário nos corredores de Brasília, como transfere responsabilidade para o Brasil, fazendo com que o governo Bolsonaro, a contragosto, se autoimponha metas e prazos pelos quais será cobrado posteriormente.

Costuma ser o que fazem as potências: determinam o tempo das coisas, as hierarquias, os parâmetros do aceitável e as regras do jogo, independente da capacidade ou pré-disposição dos players em jogar por meio delas. Uma vez dada a largada, elevam a pressão. Os incapazes de aguentar o ritmo, têm as suas vulnerabilidades expostas.

Enquanto esse é o contexto do diálogo de Cúpula, não é desprezível também que, em paralelo, o enviado especial para o clima do governo norte-americano, John Kerry tenha iniciado diálogos com um grupo que representa a chamada coalizão "Governadores pelo Clima".

Foi amplamente noticiado que Kerry reuniu-se, no fim de julho, com Eduardo Leite (RS), Flávio Dino (MA), Helder Barbalho (PA), João Doria (SP), Reinaldo Azambuja (MS), Renato Casagrande (ES) e Wellington Dias (PI). Não se trata, como parece claro, de um grupo afeito às visões de mundo do Planalto. Embora a conversa tenha sido, em um primeiro momento, para buscar colaboração subnacional no combate ao desmatamento, preservação da Amazônia, redução das emissões de carbono e no desenvolvimento de novas cadeias produtivas, não deixa de ser um movimento político com efeitos diretos sob o governo federal.

Ao mesmo tempo em que os norte-americanos fazem um tipo de "hedge" (movimento para redução de riscos) em relação ao cumprimento de seus interesses em matéria de política ambiental no Brasil, também aproveitam para, sutilmente, sinalizar ao presidente brasileiro que há vários meios e forças que se podem fazer mobilizar para constrange-lo, se necessário.

É ponto pacífico que, na política, jogos são metáforas para retratar cenários de constantes negociações. Relembrando os ensinamentos do professor Robert Putnam, em política internacional é comum que ocorram, simultaneamente, em múltiplos níveis. Essa partida entre Brasil e Estados Unidos está apenas começando. Até o momento, todos tentam fazer parecer que será uma interlocução suave e sem crises. Estou entre os menos otimistas. Há diversas razões que permitem apostar em um jogo truncado e com algumas contusões pela frente. É importante lembrar: a política se ocupa do que é oportuno. Grande Thoreau.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL