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Fernanda Magnotta

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Afeganistão, entre o dogmatismo de Washington e o pragmatismo de Pequim

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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

19/08/2021 04h00Atualizada em 19/08/2021 06h05

Acompanhamos, nos últimos dias, a escalada de tensões no Afeganistão, com a retomada de poder pelo grupo Taleban. Enquanto, de um lado, os Estados Unidos e países europeus se ocupavam de esvaziar embaixadas e resgatar funcionários, de outro, a China reconhecia o novo governo e declarava disposição em construir, com ele, relações amistosas. Rapidamente, portanto, o Afeganistão se transformou em um microcosmos do que promete ser o mundo do século 21: um espaço de permanente confronto entre o dogmatismo de Washington e o pragmatismo de Pequim.

Por mais que o presidente norte-americano Joe Biden, ao reafirmar a decisão de retirar as tropas norte-americanas do Afeganistão, tenha tentado rejeitar o caráter missionário-cruzadista da incursão no país, essa é uma mensagem indigesta para quem tem boa memória.

Para além de desarticular a Al Qaeda e combater o terrorismo e as forças insurgentes na política afegã, a invasão de 2001 foi fortemente pautada no conceito de "nation building". Prevalecia, nos Estados Unidos, a ideia de que a democracia liberal era de importância vital para induzir relações pacíficas e cooperativas entre os Estados. Assim, na medida em que os instintos agressivos de líderes autoritários fomentariam a guerra, promover a liberdade nos conduziria à paz. Esse era o espírito que pautava a narrativa dominante naquele momento. Os Estados Unidos eram colocados como um exportador de valores e como tutores de um processo de transformação política e social no Afeganistão.

Depois de vinte anos de ocupação, a saída norte-americana abre espaço para que imponha, dessa vez, uma outra cartilha: a do pragmatismo chinês, que será marcada, prioritariamente, por interesses econômicos na região. Diferente do que costumam fazer os norte-americanos, não interessa aos chineses balizar relações bilaterais a partir de princípios morais ou políticos. O modelo chinês, como bem resumiu Joshua Cooper Ramo no clássico texto "O consenso de Beijing", está pautado em: i) modernização via inovação e saltos tecnológicos; ii) crescimento sustentável e distribuição de riqueza; iii) autodeterminação.

No caso específico do Afeganistão, as relações com o Taleban miram, primeiramente, os interesses no setor de minérios, particularmente de ferro e cobre, além de metais raros, muito úteis para a indústria de alta tecnologia.

Em segundo lugar, a China vislumbra desenvolver a infraestrutura necessária para integrar o Afeganistão ao "Belt and Road Initiative", o maior projeto chinês no campo internacional, que envolve a construção de estradas, portos e ferrovias conectando Ásia, África e Europa.

Em terceiro lugar, os chineses buscam, ao se aproximar do novo governo, extrair do Taleban o compromisso de que não apoiarão movimentos de independência da província chinesa de Xinjiang, na qual a maioria da população é muçulmana, sobretudo da etnia uigur.

Por fim, do ponto de vista geopolítico, a China está diante de uma oportunidade para eclipsar os Estados Unidos, ocupando não apenas o vácuo de poder deixado pelos Estados Unidos, mas também capitalizando sobre as falhas norte-americanas nessa operação e tornando sua ação hegemônica mais difícil na região.

Hoje, 19 de agosto, é feriado nacional no Afeganistão. Em condições normais, celebrar-se-ia a independência do país, ocorrida em 1919. Apesar disso, diante de tudo o que estamos assistindo e, na encruzilhada entre Washington e Pequim, está difícil encontrar forças para comemorar. Se o modelo norte-americano é arrogante, o modelo chinês é indiferente. Ambos são auto interessados. Em nenhum dos casos é sobre o Afeganistão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL