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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Após 2 meses de guerra, redesenho do território ucraniano parece inevitável

Bandeiras da Ucrânia e da Rússia, próximas a um carro-tanque de brinquedo, sobre um mapa da Europa. - Brasil Escola
Bandeiras da Ucrânia e da Rússia, próximas a um carro-tanque de brinquedo, sobre um mapa da Europa. Imagem: Brasil Escola
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

24/04/2022 09h08

Após 2 meses da invasão russa à Ucrânia, o futuro dessa guerra segue incerto. Sabemos que as demandas do Kremlin foram reduzidas com o passar do tempo e que houve mudança de orientação militar no campo de batalha. Apesar disso, é precipitado tomar como certas as razões que explicam esses movimentos e, a partir daí, presumir o que vem pela frente.

Hoje, pouco se fala em uma transição de poder na Ucrânia, com a substituição ou não reconhecimento do presidente Volodymyr Zelensky como líder no comando, por exemplo, ou sobre a adesão da Ucrânia na União Europeia. Embora obviamente interesse a Moscou fortalecer grupos pró-Rússia no país e manter a Ucrânia dentro de sua própria esfera de influência, a pauta está, nesse momento, centrada na contenção dos avanços da OTAN rumo do Oriente e na tentativa de desmilitarização do país, com a renúncia imediata de certos territórios.

Ao mesmo tempo em que o escopo das negociações foi sendo limitado nas conversas diplomáticas, também no campo de batalha acompanhamos alterações de rota. Os russos não tomaram Kiev, como pareciam almejar desde o princípio da guerra. Recuaram também em várias outras cidades importantes da Ucrânia. No lugar disso, passaram a se concentrar, nas últimas semanas, em uma porção muito mais circunscrita do território daquele país.

Generais russos declararam recentemente que almejam, nessa guerra, o controle completo do Donbas e do sul da Ucrânia. Buscam, portanto, maior coordenação terra-ar e um estrangulamento a partir do leste. Não à toa, Mariupol totalmente ocupada representa o símbolo dessa divisão do território ucraniano. A cidade é fundamental para assegurar um corredor terrestre entre a Crimeia e Donbas e tem saída para o Mar de Azov, parte do Mar Negro.

Teria sido parte da estratégia russa manter uma ofensiva inicialmente descentralizada apenas para moldar o ambiente e enquadrar as negociações, expandindo seu campo de barganha ao máximo para depois concentrar esforços no que realmente lhes convém? Ou o que assistimos agora é mesmo um rearranjo fruto da necessidade de reduzir ambições no campo de batalha haja vista a dificuldade de Moscou em avançar com os próprios planos? Difícil dizer.

Sabemos que na Guerra da Ucrânia, a imprevisibilidade é parte do jogo. O que parece cada vez mais claro, no entanto, é que dificilmente o encerramento do conflito no leste europeu escapará de uma discussão sobre os contornos fronteiriços da Ucrânia.

Passados dois meses do início do conflito, parece plausível, nesse momento, assumir que o futuro das negociações deverá envolver ao menos um dos seguintes cenários: 1) uma saída a partir da divisão da Ucrânia em dois Estados, um sob o comando do Kiev, que inclui boa parte do espaço geográfico atual do país, e outro independente, que funcione como tampão ou cinturão de proteção dos interesses russos - esse liderado pelos separatistas pró-Moscou, com extensão da região agora ocupada; 2) uma saída por meio do achatamento do atual território ucraniano via incorporação da porção leste do território pela própria Rússia, o que expandiria formalmente o desenho de fronteiras desse país e reduziria a dimensão da atual área da Ucrânia.

Em nenhum dos dois casos temos mar calmo pela frente.