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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Depois da Ucrânia, surgem alertas sobre risco de a Rússia atacar a Moldávia

Tanque virou adorno de praça na Transnístria - Divulgação Transnístria
Tanque virou adorno de praça na Transnístria Imagem: Divulgação Transnístria
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

28/04/2022 10h45Atualizada em 29/04/2022 14h23

Os temores de que a Moldávia possa ser arrastada para a Guerra da Ucrânia se intensificaram nos últimos dias, depois de uma série de explosões que ocorreram na Transnístria, uma região separatista desse país. Foram atingidos o Ministério da Segurança de Estado, uma torre de rádio e uma unidade militar. Os autores dos ataques ainda são desconhecidos.

Essa região, que faz fronteira com a Ucrânia à oeste, é controlada por grupos pró-Rússia e abriga, de forma permanente, cerca de 1.500 soldados russos, além de um depósito de armas. Nela, há circulação de moeda própria e o russo é a língua predominante —na Moldávia, em contrapartida, a língua falada pela maioria da população é o romeno. Além disso, a economia da Transnístria é altamente dependente do gás enviado gratuitamente por Moscou.

Um artigo de Amanda Coakley e Amy Mackinnon publicado pela revista Foreign Policy nesta semana afirma que a Rússia poderia avançar em direção à fronteira da Moldávia "como parte de seu plano de redesenhar o mapa da região do Mar Negro". Nesse contexto, não se pode esquecer que Odessa, a principal cidade portuária da Ucrânia, fica a leste da Transnístria, e que uma incursão por essa direção poderia funcionar como alternativa para dominar a região, já que, pelo outro lado, há resistência das forças armadas ucranianas.

Não se pode esquecer também que "defender pessoas identificadas com a etnia russa" foi o principal argumento utilizado pela Rússia para invadir a Ucrânia em fevereiro. Essa mesma narrativa tem aparecido de forma recorrente para tratar da Transnístria. Foi evocada, por exemplo, por Rustam Minnekayev, general russo, em entrevistas recentes.

A ênfase na Transnístria igualmente apareceu nas falas do porta-voz do presidente russo Vladimir Putin, Dmitry Peskov e do líder da autoproclamada república em Donetsk, Denis Pushilin. Durante um talk show, este último propôs abertamente que a Rússia lançasse uma nova fase de campanha na guerra contra a Ucrânia que envolvesse a Transnístria.

A preocupação com o futuro da região, de mesmo modo, levou o Conselho de Segurança Nacional da Moldávia e se reunir nos últimos dias, bem como o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky a se manifestar. Ele acusou a Rússia de estar por trás das explosões como forma de desestabilizar a situação na região e criar pretextos para novos passos no conflito.

Para os observadores mais atentos, já há algum tempo também a movimentação das autoridades norte-americanas chama a atenção pelo foco dado à Moldávia. Desde o início da Guerra da Ucrânia, o país foi visitado pelo Secretário de Estado Antony Blinken, em março, e pela responsável pela USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento) Samantha Power, em abril. Ambos se reuniram com a presidente moldava Maia Sandu.

Nos encontros até aqui, o objetivo sempre foi deixar claro que os Estados Unidos apoiam "a democracia, a soberania e a integridade territorial da Moldávia". Para aliviar os efeitos da guerra na região, os norte-americanos direcionaram ao país recursos que já somam mais de US$ 130 milhões. O intuito, segundo eles, é contribuir para a gestão da crise humanitária/de refugiados e para mitigar os custos econômicos do conflito. Também tem havido esforços expressivos por parte dos Estados Unidos em auxiliar na redução de dependência da Moldávia de fontes energéticas da Rússia.

Ao falar com a imprensa, durante sua recente passagem pelo país, Blinken celebrou os 30 anos de amizade entre Estados Unidos e Moldávia. Na ocasião, ele disse que "os países têm o direito de escolher seus próprios futuros", que "a Moldávia escolheu o caminho da democracia, uma economia mais inclusiva, uma relação mais próxima com os países e instituições da Europa" e que "os Estados Unidos apoiam a Moldávia nesses esforços".

Para além do que é publicamente declarado, e de toda assistência dada ao desenvolvimento, certamente há riscos de segurança que envolvem a Moldávia e que estão sendo monitorados pelo Ocidente. A pergunta que segue sem resposta, porém, é: qual o limite das ambições russas no leste europeu?