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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Visita de Pelosi à Ucrânia mira opinião pública dos EUA e eleições de 2022

5.mar.2020 -A líder da Câmara Nancy Pelosi - Saul Loeb/AFP
5.mar.2020 -A líder da Câmara Nancy Pelosi Imagem: Saul Loeb/AFP
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

01/05/2022 09h39

Depois de receber o mais alto escalão dos departamentos de Estado e de Defesa, os secretários Antony Blinken e Lloyd Austin, respectivamente, a Ucrânia foi visitada, neste sábado, por uma comitiva de congressistas democratas, liderada por Nancy Pelosi, Presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. Ela, que é a mais importante autoridade do país a viajar para Kiev desde o início do conflito, se encontrou com Volodymyr Zelensky e declarou apoio aos ucranianos "até a vitória".

Para além do que isso significa em termos geopolíticos e da inserção internacional dos Estados Unidos, a viagem de Pelosi antecipa o papel que a Ucrânia terá, também, para a política doméstica dos Estados Unidos nos próximos meses. Em novembro desse ano ocorrerão as chamadas "eleições de meio de mandato" do Congresso naquele país. Essas eleições são consideradas vitais para a administração de Joe Biden, na medida em que definirão sua capacidade de governar durante a segunda metade do mandato.

Atualmente, o partido de Biden tem ligeira maioria nas casas legislativas. Segundo o mais recente levantamento do Congressional Research Service, na atual Câmara dos Representantes há 225 democratas, 211 republicanos e 5 assentos vagos. O Senado tem 50 republicanos, 48 democratas e 2 independentes, que fazem caucus com os democratas. As perspectivas, no entanto, não são das mais promissoras para o presidente, já que uma série de pesquisas sugere que os republicanos, até o momento, têm vantagem na disputa de 2022.

Antes da Ucrânia, Biden estava enfrentando críticas que começavam na gestão da pandemia de Covid-19 e chegavam até os problemas econômicos do país, sobretudo puxados pela inflação record e pela elevação dos preços dos combustíveis. Com a atabalhoada saída do Afeganistão, em 2021, sua popularidade enfrentou a pior baixa desde o começo do governo.

A crise da Ucrânia marcou, desde o início, uma oportunidade de criar consensos dentro dos Estados Unidos. Ao discursar para o Congresso norte-americano poucos dias após a invasão russa, Biden foi aplaudido em pé por membros dos dois partidos. A crise no leste europeu estancou a queda de aprovação de Biden e levou à tramitação, de forma bipartidária, de pacotes bilionários para ajuda externa. O último deles, apresentado dias atrás, previa US$ 33 bilhões a serem enviados à Ucrânia, dos quais mais de US$ 20 bilhões seriam em equipamentos militares, como artilharia e veículos blindados.

Apesar disso, a vida de Biden continua difícil. Os problemas anteriores seguem existindo e a própria opinião pública do país é muito volátil no que envolve a guerra. Um levantamento feito pela Gallup, em meados de março, mostra que os norte-americanos têm uma visão extremamente negativa da Rússia e de Vladimir Putin e que há apoio generalizado para as sanções econômicas. Apesar disso, os dados apontam que, embora estejam prestando atenção ao conflito, a Ucrânia não é necessariamente a prioridade máxima da maioria. Em geral, o foco segue sendo a inflação.

Uma pesquisa da CBS, por sua vez, reforça a ideia de que o eleitorado estadunidense apoia a pressão econômica, mas rejeita fortemente a ideia de envolvimento militar direto no conflito europeu. Enquanto a política de impor restrições financeiras e comerciais tem quase 80% de apoio, o envio de tropas para a Ucrânia, por exemplo, não passa de 25%.

Nesse sentido, os números também sugerem uma visão ambígua sobre Biden e os democratas. Ao mesmo tempo que indicam alinhamento entre o que deseja o público e o que faz o presidente, a maioria (55%) desaprova a sua forma de lidar com a crise e clama por maior protagonismo por parte dos Estados Unidos. As informações são corroboradas por dados mais recentes da AP-NORC, em que aparece a percepção de que Biden não é duro o suficiente com a Rússia.

Cada pequeno gesto, portanto, incluindo a recente visita de Pelosi à Ucrânia, representa, para consumo doméstico, mais uma tentativa de contribuir para esse, que parece ser o desafio democrata até novembro de 2022: demonstrar força, controlando os riscos de exposição.