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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cúpula das Américas começa sob risco de boicote e histórico de desacordos

Países participantes da OEA (Organização dos Estados Americanos) - Getty Images
Países participantes da OEA (Organização dos Estados Americanos) Imagem: Getty Images
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

05/06/2022 08h18Atualizada em 05/06/2022 13h32

Começa amanhã, nos Estados Unidos, mais uma Cúpula das Américas. Organizado no âmbito da OEA, a Organização dos Estados Americanos, esse tipo de encontro tem como objetivo debater temas de interesse hemisférico e dinamizar as oportunidades de cooperação no continente.

A OEA é considerada o mais antigo organismo regional do mundo, remontando à Primeira Conferência Internacional Americana (1889-1890), em que foi criada a União Internacional das Repúblicas Americanas. Da forma como a conhecemos hoje, ela foi instituída em 1948, tendo o Brasil como um de seus membros fundadores.

Proposta pelo governo Clinton, nos anos 1990, a Cúpula das Américas, por sua vez, surgiu para dar continuidade à chamada "Iniciativa para as Américas" e visando remediar o fato de que na OEA não possui instâncias de Chefes de Estado e de Governo.

A primeira reunião, portanto, ocorreu em Miami, em 1994, com lançamento da ALCA enquanto tema central. Desde então, outros sete encontros ocorreram:

  • Santiago (1998),
  • Quebec (2001),
  • Mar del Plata (2005),
  • Port of Spain (2009),
  • Cartagena (2012),
  • Cidade do Panamá (2015) e
  • Lima (2018).

Para além da oposição de inúmeros países à proposta da ALCA e de sua posterior rejeição definitiva, as Cúpulas das Américas mais recentes foram marcadas por particulares divergências no que tange à Cuba e Venezuela. No primeiro caso, envolvendo posições contrárias entre os países sobre a volta de Cuba ao sistema interamericano. No segundo caso, por contraposições sobre as sanções impostas pelos Estados Unidos à Caracas.

Em 2015 a falta de consensos fez com que a Cúpula terminasse sem uma declaração final. Em 2018, ela foi marcada por um esvaziamento geral: Trump, o então presidente dos Estados Unidos, não compareceu, bem como diversos outros líderes; a Venezuela foi desconvidada de última hora, e a agenda do encontro gravitou sobre temas menores e menos estratégicos.

Esse ano, portanto, a retomada do evento e sua realização em território norte-americano eleva as expectativas sobre o que dele pode derivar. Acompanhamos, nos bastidores, que governo Biden articulou-se fortemente nas últimas semanas para tentar evitar um boicote generalizado. Para ele, isso é importante tanto para estabelecer diferenças entre as gestões Biden e Trump quanto para demonstrar liderança e prestígio regional.

As semanas que antecederam o encontro também foram cercadas de muita indefinição sobre como os Estados Unidos lidariam com Cuba e Venezuela. No final, esses dois países, e também a Nicarágua, foram excluídos do evento, o que gerou críticas e comoção.

Do ponto de vista de uma agenda de trabalho, é esperado que, na pauta oficial da reunião, os temas dos quatro pilares institucionais da OEA se façam presentes e funcionem como guarda-chuva para as negociações. Eles incluem: 1) iniciativas para promover e consolidar a democracia; 2) mecanismos para ampliar a defesa os direitos humanos; 3) cooperação para garantir a paz e a segurança continentais; e 4) políticas para promover o desenvolvimento regional.

Apesar disso, é bastante provável que uma agenda paralela, muito mais permeada por sensibilidades e discordâncias, roube a cena. Ela envolve os incômodos com uma ação errática e de conveniência dos Estados Unidos na região e também o papel de atores que não estarão presentes, mas que são vistos como fundamentais para a região. Isso envolve tanto os latino-americanos excluídos do encontro, quanto players extrarregionais estratégicos, como Rússia, e principalmente, China.

Todos os olhos voltados para Los Angeles.