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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Guerra subverte agenda e leva os EUA a olharem para Europa em vez de Ásia

9.dez.2021 - Joe Biden faz o discurso de abertura para a cúpula virtual pela democracia, em Washington, nos EUA - Chip Somodevilla/Getty Images via AFP
9.dez.2021 - Joe Biden faz o discurso de abertura para a cúpula virtual pela democracia, em Washington, nos EUA Imagem: Chip Somodevilla/Getty Images via AFP

Colunista do UOL

04/06/2022 07h07Atualizada em 05/06/2022 10h49

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Um dos mais importantes efeitos colaterais causados pela guerra da Ucrânia é, sem dúvida, a reviravolta que ela promoveu em termos da agenda de prioridades do governo norte-americano. Já falamos disso em colunas anteriores, inclusive.

Em matéria de política internacional, Biden chegou ao poder tentando reforçar duas ideias principais: a de que privilegiaria os chamados "novos temas", como meio ambiente, por exemplo, em detrimento dos tradicionais assuntos de segurança; e a de que renovaria o protagonismo dos Estados Unidos nas áreas de influência mais promissoras deste século, como é o caso da Ásia, com vistas a contrabalançar o crescente poderio chinês na região e no mundo.

Com a eclosão da Guerra na Ucrânia, no entanto, o senso de urgência e a percepção de riscos sofreram necessárias e óbvias alterações. Biden teve seus planos atravessados por um conflito indesejado, mas com o qual precisou conviver.

Tentou, desde então, extrair da crise no leste europeu uma oportunidade para demonstrar sua liderança e o compromisso dos Estados Unidos com os aliados e o multilateralismo, o que também era uma bandeira de campanha do atual presidente.

No campo externo, o resultado foi uma rápida capacidade de resposta articulada para o conflito, o fortalecimento da OTAN e o aumento da confiança entre os parceiros tradicionais. Do ponto de vista interno, Biden conseguiu estancar parcialmente sua crise de popularidade e suas decrescentes taxas de aprovação.

Apesar disso, os efeitos de longo prazo são limitados para os Estados Unidos. O país segue refém de sua própria sina: não consegue desviar de uma pauta que coloca a questão militar no centro do debate público, nem consegue definir, por conta própria, o eixo geopolítico em torno do qual pretende gravitar.

Ao contrário, ou se mantém refém dos efeitos de ações que eles próprios provocaram no passado, ou são fagocitados por crises de terceiros diante das quais não conseguem se furtar. Entraram neste século reconhecendo a importância de olhar para a Ásia, mas nunca conseguiram implementar uma estratégia coesa para isso. Primeiro, dividiram a atenção com as tensões no Oriente Médio, sobretudo Afeganistão, Iraque e Síria, agora, novamente desfiam o foco administrando a situação na Europa.

O efeito colateral esperado de tempos turbulentos, em termos políticos, é de que, buscando um discurso seguro e bem aceito para consumo doméstico, o governo norte-americano tende a se agarrar na velha obsessão que lhe resta: a exportação internacional de seus próprios valores. O problema disso é que talvez o mundo de 2022 também já não dê mais conta de acomodar essa agenda.