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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dez conclusões sobre os 100 dias da Guerra na Ucrânia

23.abr.2022 - O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, fala com jornalistas estrangeiros em estação de metrô em Kiev - 23.abr.2022 - Genya Savilov/AFP
23.abr.2022 - O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, fala com jornalistas estrangeiros em estação de metrô em Kiev Imagem: 23.abr.2022 - Genya Savilov/AFP
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

03/06/2022 11h33Atualizada em 03/06/2022 15h36

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Transcorridos exatos 100 dias da invasão russa na Ucrânia, temos refletido muito sobre os efeitos dessa crise e o seu significado. Nesta coluna, anteriormente, já fizemos alguns balanços do conflito, como quando ele completou uma semana, depois um mês, 50 dias e dois meses.

Nesse tempo, embora haja espaço para mais dúvidas do que certezas, algumas conclusões parecem cada vez mais claras. São elas:

1) O "mundo multipolar" é uma realidade inconteste do século XXI: os Estados Unidos, sozinhos, não são mais capazes de garantir o status quo, e várias outras lideranças emergem interessadas não apenas em angariar poder e protagonismo internacional, mas imbuídas da intenção de revisitar as regras do jogo e as narrativas dominantes.

2) Valores heterogêneos entre as potências marcarão os conflitos dessa era: as diferenças entre os países não se restringem aos aspectos materiais, à contabilidade de suas capacidades ou ambições geopolíticas, mas à tentativa de garantir legitimidade para o seu próprio modelo de organização política, suas crenças e visões de mundo. Há um espaço relevante de disputa sobre o que significa e o que qualifica regimes democráticos e autocráticos, inclusive.

3) Para além da ameaça nuclear, guerras híbridas e "por procuração" são uma tendência cada vez maior. Conviveremos, cada vez mais, com mecanismos de enfrentamento variados e de múltiplas dimensões, com capacidade de penetrar nas sociedades de diversas formas e causar danos sistêmicos de grande impacto, inclusive por meio de novos atores transnacionais, cada vez mais importantes e decisivos nos conflitos do planeta.

4) A rivalidade entre Estados Unidos e China representa o maior ponto de sensibilidade do sistema internacional contemporâneo. Acomodar a China como um "responsible stakeholder", como já foi a intenção norte-americana, parece uma realidade cada vez mais distante. Aos poucos, a China vai assumindo posições mais evidentes de contestadora da ordem internacional e, com isso, abrindo espaço para uma estratégia marcada por competição e enfrentamento.

5) Há limites concretos para a realização dessa vocação, mas a Rússia de Putin pode ser considerada uma potência revolucionária, com interesse de romper com a estrutura do sistema internacional atualmente existente.

6) Há espaço para uma reconfiguração da estratégia militar da Europa e incentivos para a estruturação de alianças de segurança no indo-Pacífico. Esses são movimentos novos e que se tornaram prementes, para muitos países, apenas após a percepção de risco renovada pela crise na Ucrânia.

7) A globalização e seus fluxos são inexoráveis, mas seus efeitos estimulam, paradoxalmente, o fortalecimento de nacionalismo, protecionismo e populismo em várias partes do planeta.

8) Segurança energética e segurança alimentar são assuntos urgentes quando se analisa o arcabouço de interesses vitais dos países e precisam, portanto, ser elementos escriturados em qualquer análise de risco político.

9) É preciso encontrar meios para ampliar as redes de apoio a pessoas em condição de vulnerabilidade. O mundo ainda é um lugar complicado e pouco preparado para lidar com refúgio e migrações.

10) É preciso, definitivamente, renovar o sistema multilateral e as estruturas de governança global, cuja capacidade de resposta é lenta e pouco assertiva.

Em suma: os 100 dias da crise no leste europeu nos relembram que instabilidade, incerteza e insegurança são as palavras-chave do nosso tempo.