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Jamil Chade


Protestos em 2019 encerraram década de transformações sociais

Protestos na Praça Baquedano, em Santiago, Chile - Susana Hidalgo/Reprodução Instagram @su_hidalgo
Protestos na Praça Baquedano, em Santiago, Chile Imagem: Susana Hidalgo/Reprodução Instagram @su_hidalgo
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

29/12/2019 04h04

Chile, Bolívia, Haiti, Equador, Venezuela, Argélia, Sudão, Hong Kong, Zimbábue, República Tcheca, Porto Rico, Espanha, França, Iraque, Irã, Líbano, África do Sul, Índia. Em 2019, as ruas desses países despertaram. Cada qual com seu motivo. Cada qual com sua história, seus atos e suas realidades que não podem ser comparáveis. Mas todas com um ponto em comum: a fúria de uma população para desafiar as autoridades estabelecidas, sejam de direita, de esquerda, religiosas ou laicas.

Incendiadas, as ruas foram as últimas testemunhas de uma década de crise e de frustrações. Uma espécie de cortina que desceu depois de um período inédito e que chegou a ameaçar as bases do capitalismo e com um impacto global.

A década havia iniciado sob a sombra da pior crise financeira internacional desde 1929, que teve seu início em 2008. Em alguns países, a economia perdeu 25% do PIB. O número de desempregados aumentou em mais de 20 milhões de pessoas e, em praticamente todo o mundo desenvolvido, famílias de classe média tiveram de apertar os cintos, trabalhar por mais anos e refazer sonhos.

No mundo, US$ 10 trilhões foram usados pelo poder público para salvar o sistema. Só na Europa, oito países pediram resgates de diferentes formas. E funcionou. Os bancos voltaram a dar lucros e pagar prêmios milionários aos seus operadores.

Mas em 2019, antes que a década acabasse, ficou evidente que o mal-estar não havia sido superado. Afinal, de maneiras diferentes e com receitas mais ou menos criativas, quem pagou a conta foi a população.

Ao final de 2017, um informe da própria UE já indicava que a pior recessão em seis décadas continuava a ver seu impacto, ainda que o bloco e o euro tivessem sido salvos.

Pierre Moscovici, o então comissário de Assuntos Econômicos da UE, insistia que esse legado não seria corrigido sozinho. "Vimos uma maior divergência econômica e social entre os países da Europa se desenvolver. Precisamos promover uma maior convergência", defendia.

O impacto social mais duro foi sentido pelos jovens. Em 2017, 45% deles na Grécia continuava sem emprego. Na Espanha, a taxa era de 39%. A pobreza, segundo os especialistas, também aumentou. De acordo com dados da Eurostat, o número de pessoas que passam por alguma necessidade é 23% acima das taxas de 2008, enquanto a desigualdade também aumentou.

Coincidência?

Hoje, especialistas se debruçaram em tentar encontrar motivos que possam explicar a coincidência de protestos pelo mundo, transformando 2019 num caleidoscópio em que, em cada giro, uma nova peça era incluída.

Em alguns casos, foi o anúncio do aumento do preço do combustível que transbordou a insatisfação popular em revolta. Mas em outros casos, como na África do Sul, o centro da convulsão social estava num sentimento xenófobo por parte da população local. Não faltaram ainda as centenas de manifestações sobre o clima, lideradas por estudantes.

Mas uma das hipóteses mais defendidas está ligada com a desigualdade social, que atinge um nível inédito no capitalismo e que seria resultado ainda do receituário para superar a crise de 2008.

O modelo desenvolvido desde então chega a preocupar até mesmo o Fórum Econômico Mundial, a Meca do poder financeiro internacional. Hoje, em algumas sociedades, a previsão é de que sejam necessárias nove gerações para que a classe mais pobre possa atingir um estatus de classe média.

Depois de se recuperar em parte do colapso de 2008, as economias voltaram a crescer. Mas a uma taxa inferior à média das últimas décadas, insinuando o que poderia ser o esgotamento de um sistema.

Com sociedades cada vez mais distantes da elite econômica e vendo uma expansão pífia de seus salários, não demorou para que a frustração se traduzisse em desconfiança completa pelo sistema político e a acusação de que líderes estão surdos diante dos apelos da sociedade.

A OCDE foi uma das entidades que, em 2019, alertou sobre o risco que tal situação criaria. Num estudo publicado ainda em abril, a entidade apontou que a classe média está encolhendo nos países ricos. Se nos anos 60 quase 70% dessas populações poderiam ser consideradas como classe média, na geração dos "millenials" a taxa não passa de 60%.

"Governos precisam ouvir as preocupações de seu povo e proteger e promover o padrão de vida da classe média", sugeriu Angel Gurría, secretário-geral da OCDE.


Renúncias

Em diferentes partes do mundo, a falta de perspectiva se traduziu de uma maneira diferente e foi sequestrada por grupos distintos para reforçar suas posições, protestos ou pontos de vista. Na Catalunha, não são poucos os especialistas que apontam que foi o fim da festa da economia espanhola a partir de 2010 que abriu caminho para o fortalecimento do sentimento nacionalista.

Já em outras regiões, regimes instalados tiveram sérias dificuldades em se manter no poder diante da crescente insatisfação popular com o destino em termos de qualidade de vida e emprego.

Em 2019, não foram poucos os casos em que governos tiveram de ceder. Alguns, como Abdelaziz Bouteflika na Argélia e Omar al-Bashir, tiveram de renunciar a planos de se manter no poder. No Iraque, Porto Rico e no Líbano, os governos também pediram demissão diante da força das ruas. Na Bolívia, ainda que o golpe final tenha vindo dos militares, a multidão nas ruas também abriu caminho para a queda de Evo Morales.

Em outros, como no Chile, o debate foi aberto sobre a reformulação da própria constituição, uma espécie de contrato social de uma nação. O que era um "modelo" para a América Latina mostrou que não atendia a todos da mesma forma.

Mas o ano também revelou como democracias podem cometer sérios crimes. No Chile, investigações da ONU apontaram para abusos e violações de direitos humanos cometidos pela polícia local ao tentar reprimir os protestos. Na Índia, intelectuais foram detidos diante das câmeras.

Diferente de outros anos em que o confronto se transferiu para as ruas, como em 1968 e 1989, 2019 contava com a força da Internet. Na Índia e Irã, protestos foram respondidos pelas autoridades com um black-out em todo o tipo de comunicação. No caso de Teerã, a suspeita de ongs de direitos humanos é de que a suspensão da Internet tenham fechado uma cortina permitindo que mais de 1,5 mil pessoas fossem assassinadas ou detidas.

O poder da Internet também levantou a suspeita de que, ainda que espontâneo, esses movimentos acabaram sendo manipulados e inflados por interesses de potências estrangeiras. Não são poucas as acusações contra o governo americano na Bolívia e Hong Kong, ou contra o governo russo em seu envolvimento atiçando nos bastidores atos em Paris ou Barcelona.

O ano também foi uma demonstração de que, ainda que a ultra-direita esteja ganhando força e que ditaduras de esquerda queiram se perpetuar no poder, a força cívica em diferentes sociedades está viva.

Também se descobriu que os manifestantes estão conectados. Não apenas entre eles. Mas aprendendo e tomando lições de outros protestos pelo mundo. Em Barcelona, o "Tsunami Democrático" copiou estratégias vindas de Hong Kong, ao ocupar o aeroporto. No Chile, estratégias de defesa dos estudantes foram repassadas por manifestantes asiáticos, nas universidades de Hong Kong.

Se as ruas se incendiaram em 2019, nada indica que a ira tenha desaparecido ou sido resolvida. Ainda que alguns governos estejam celebrando o fim do ano, analistas alertam que 2020 não os dará um refresco enquanto as reivindicações sociais não forem atendidas.

Jamil Chade