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Jamil Chade


Humilhação e mentira reabrem pressão interna sobre regime iraniano

07.jan.2020 - Milhares acompanham o funeral do general Qassim Suleimani em Kerman, no Irã. O corpo do militar chegou à cidade natal dele após três dias de funeral e será enterrado lá - ATTA KENARE / AFP
07.jan.2020 - Milhares acompanham o funeral do general Qassim Suleimani em Kerman, no Irã. O corpo do militar chegou à cidade natal dele após três dias de funeral e será enterrado lá Imagem: ATTA KENARE / AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

11/01/2020 07h09

O reconhecimento de que um erro causou a morte de mais de 170 inocentes abala de forma dramática o regime de Teerã que, nos últimos dias, tentou criar no país um sentimento de união nacional desde a morte de Qasem Soleimani.

O ataque contra o general havia aberto uma brecha rara para o governo colocar de lado as inúmeras dificuldades financeiras que atravessa e os sinais de esgotamento de uma população que começava a tomar a iniciativa de se rebelar.

Quem não tratasse Soleimani como um mártir era alvo de medidas draconianas por parte do regime. A censura foi incrementada, assim como o teatro para transformar o general em herói nacional.

Junto com essa imagem vinha a versão do poder das Forças Armadas do Irã, de sua capacidade de resistir. Dias depois, quando os ataques iranianos ocorreram nas bases americanas no Iraque, uma vez mais a propaganda falou mais alto. Teerã, num primeiro momento, chegou a afirmar que 80 "terroristas" tinham sido mortos. Os governos do Iraque e dos EUA tinham outra versão: ninguém morreu.

Ao público interno iraniano, o regime havia resguardado sua imagem. Um ato de Washington não ficaria sem resposta.

Protestos

Mas com um governo pressionado internamente e no cenário internacional diante da queda de um avião civil, o reconhecimento de uma falha dos militares mudou o cenário de forma dramática.

Inconformados, iranianos enfrentaram o risco de uma repressão e passaram a protestar, inclusive pedindo a renúncia do governo e mesmo do líder supremo Ali Khamenei. Fotos de Soleimani foram destruídas e uma multidão se concentrou no centro da cidade para protestar. Manifestações também foram registradas nas universidades onde algumas das vítimas estudavam.

Nas redes sociais, iranianos não hesitaram em atacar o governo, alertando que se o míssil não foi intencional, o mesmo não poderia ser dito sobre a mentira mantida por dias sobre a responsabilidade das autoridades.

Pedindo para não se identificar diante do temor de uma retaliação, ativistas iranianos confirmaram que o novo capítulo da crise é uma humilhação para o governo e reabre a desconfiança de sua própria população em relação a um regime que mente, mata e corrompe o sistema econômico. Parte das pessoas à bordo eram iranianos, aqueles mesmos que o governo dizia defender contra os "terroristas americanos".

O erro também deixa os militares expostos. Primeiro, por ter mantido inexplicavelmente o espaço aéreo iraniano aberto, enquanto lançava mísseis a bases no exterior. Depois, por revelar a falta de preparo de seus homens e ou de seus equipamentos.

Khamenei ordenou que as falhas sejam corrigidas e que os responsáveis sejam levados à Justiça. Mas, para quem está em Teerã, a situação deve abrir uma caça às bruxas por parte da ala religiosa contra uma parcela dos militares, principalmente contra aqueles que, nos primeiros dias após o acidente, juraram que a versão de que um míssil atingiu o avião era parte da "guerra psicológica" do Ocidente.

Uma das interpretações é de que a decisão de admitir o erro foi tomada como parte de uma estratégia de reduzir a tensão com o Ocidente, diante da pressão e dos indícios que proliferavam.

Mas, em todos os comunicados emitidos neste sábado, o governo fez questão de empurrar a responsabilidade política para os EUA. O erro, segundo eles, teria sido cometido em um contexto de uma tensão criada pelos americanos.

Agora, o reconhecimento da morte de iranianos por parte do governo pode mobilizar forças para que protestos voltem a ser organizados nos próximos. Mas, assim como ocorreu há poucos meses com a morte de centenas de manifestantes e a prisão de outros tantos, o temor é de que esse movimento seja respondido com violência.

Um governo que enfrenta o colapso da economia agora será confrontado pela descrença de uma população vítima tanto da repressão do regime como dos impactos das sanções americanas.

Jamil Chade